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domingo, 18 de junho de 2017

América Latina e países emergentes da Ásia. Vamos ficar para trás de novo?

Quando pensamos em países pobres que estão tentando crescer é comum lembrarmos dos países da Ásia, excluídos países avançados como Japão e Coreia do Sul tais países são, em média, mais pobres que o Brasil e a média da América Latina e Caribe. Ocorre que tais países estão crescendo mais rápido que nós e, mantendo esse ritmo, em breve poderão repetir o feito da Coreia do Sul e os outros “Tigres Asiáticos” nos deixando para trás. Seria mais uma confirmação da tese dos economistas Harold Cole, Lee Ohanian, Alvaro Riascos e James Schmitz (link aqui) que a América Latina é o caso mais difícil de explicar de fracasso em termos de crescimento econômico? Por que mesmo usufruindo de relativa paz e baixa intensidade de conflitos étnicos ou culturais não conseguimos crescer? Estamos condenados a mais cem anos de solidão?

Estou entre os que acreditam que o maior problema da América Latina é a baixa produtividade e que este fenômeno não é explicado apenas por problemas de capital humano, não estou sozinho, os economistas que citei acima seguem essa mesma tese. Caso tenha interesse no tema recomendo fortemente que leiam o texto no link. Mas, como falo sempre de produtividade e tem gente que não gosta muito do assunto vou destacar outras diferenças entre os países da América Latina e do Caribe e os países emergentes da Ásia. Nesse post vou caracterizar a aproximação na renda dos dois grupos de países e tratar da poupança e investimento, em posts futuros farei outras comparações.

Os dados utilizados são do FMI (link aqui), selecionei as variáveis já agregadas por grupos de países. Para uma lista dos países de cada grupo ver aqui, vale registrar que na lista dos países asiáticos não estão países considerados avançados como Japão, Coreia do Sul e Singapura. A figura abaixo mostra o PIB per capita, corrigido por paridade do poder de compra, dos países da América Latina e Caribe e dos países emergentes da Ásia, repare que ainda somos mais ricos, mas a diferença está diminuindo.




Caso a aproximação da renda não tenha ficado visível a figura abaixo mostra o PIB per capita dos países emergentes da Ásia como proporção do PIB per capita dos países da América Latina. É fácil ver que tal proporção cresce com o tempo. Em 1980, primeiro ano da amostra, os países emergentes da Ásia tinham um PIB per capita que era aproximadamente 12% do PIB per capita dos países da América Latina e Caribe, e, 1990 essa proporção tinha subido para 21%, em 2000 já era de 31% e em 2016, último ano da amostra, chegou a 70%. Se esta proporção continuar subindo assim nossos netos, ou mesmo nossos filhos, vão olhar para o Vietnã como hoje olhamos para Coreia do Sul, uma mistura de admiração e inconformismo de porque não fizemos o mesmo.




Para quem gosta de taxas de crescimento a figura abaixo mostra o que aconteceu em cada grupo de países entre 1980 e 2016. Repare que em praticamente todos os anos do período analisado os países emergentes da Ásia cresceram mais que os países da América Latina e Caribe. Não é período homogêneo, aqui no Brasil durante este tempo tivemos o final do regime militar, a transição democrática de Sarney, a crise política de Collor, o período reformista de FHC e Lula, a guinada desenvolvimentista no segundo mandato de Lula, o governo Dilma e a crise política de Dilma e Temer. Outros países do continente também passaram por mudanças do tipo, alternando governos autoritários, reformistas e populistas. Tivemos a crise da década de 1980, o boom das commodities e o colapso dos regimes populistas. Porém, em todos estes períodos, não conseguimos crescer consistentemente mais do que os países emergentes da Ásia. Qual o nosso problema? Quais as virtudes deles?




Comecemos pelo suspeito usual. A figura abaixo mostra a taxa de investimento nos dois grupos de países. Notem como a taxa de investimento subiu nos países emergentes da Ásia e comparem com a trajetória de nossa taxa de investimento. Enquanto eles saem de um patamar próximo a 30% e vão para um nível próximo a 40%, nós ficamos estagnados em torno de 20%. Investir mais significa mais capacidade de produção e, talvez mais importante, incorporar novas tecnologias ao processo produtivo, claro, desde que o investimento seja bem feito. Naturalmente investir mais também significa sacrifícios presentes em nome da construção do futuro, os asiáticos poderiam ter um melhor padrão de consumo se investisse menos, mas, muito provavelmente, não estariam crescendo tão mais que a América Latina e Caribe se tivessem feito isso. Se nossos filhos se perguntarem porque ficamos para trás talvez seja o caso de respondermos dizendo que escolhemos pensar mais em nós do que neles.




Sempre que falamos em investimento pensamos em poupança. Existe muito debate sobre se poupança determina investimento ou se investimento determina poupança, eu estou entre os que acreditam que ambos são determinados conjuntamente como costuma ocorrer com quaisquer quantidades demandas e ofertadas que estejamos analisando. Porém, deixando de lado o debate teórico, é fato que poupança financia investimento no sentido que para alguém investir é preciso que exista poupança. Se todos consomem completamente a própria renda não existe investimento. Claro que um país pode financiar seu investimento pegando emprestado com cidadãos de outros países, é a chamada poupança externa, mais uma vez o campo aqui é minado em termos de teoria, mas do ponto de vista de financiar o investimento, que é o que interessa aqui, mais poupança, interna ou externa, permite que sejam feitos mais investimentos. A figura abaixo mostra a taxa de poupança nos países emergentes da Ásia e nos países da América Latina e Caribe, repare que os asiáticos não apenas investem como poupam mais que o latino americanos e os caribenhos. Notem que eles são mais pobres que nós, logo dizer que somos pobres e por isso não poupamos não é um bom argumento.





A questão da taxa de poupança é particularmente relevante para os desenvolvimentistas. É fácil olhar para países asiáticos e falar do câmbio, ocorre que câmbio é preço, e, como todo preço é determinado por vários fatores que interagem no mercado. Um destes fatores é a poupança. Se um país poupa o suficiente para financiar seu investimento talvez não precise atrair poupança externa, quando acontece o contrário, caso do Brasil e de boa parte da América Latina, o país precisa atrair capital externo, ou seja, precisa atrair dólares, isso aumenta a oferta de dólares e age no sentido de valorizar a moeda local. Levando isso em conta é um espanto que tantos economistas que se dizem desenvolvimentistas tenham se omitido, ou mesmo aplaudido, o aumento dos gastos, particularmente dos gastos públicos da década anterior.

Voltando a atenção para o Brasil é válido registrar que sofremos de dois males quanto ao nosso investimento. Não apenas investimos pouco como também investimos mal, o aumento na taxa de investimento que ocorreu na década passada poderia ter ajudado muito no crescimento desta década. Não foi o que aconteceu, no lugar de empresas sustentáveis investimos nas tais campeãs nacionais, no lugar de infraestrutura de transportes ou energia investimos em estádios. Deu no que deu, mas isso é assunto para outro post.


domingo, 26 de março de 2017

Rendimento Real da Poupança

Tenho visto vários exercícios tentando estimar quanto seria o rendimento do dinheiro pago à guisa de contribuição previdenciária se o mesmo valor fosse aplicado na poupança. Em um dos casos a simulação colocava um rendimento de 0,65% ao mês na poupança, sugerindo que o sujeito chutou o número ou fez alguma confusão com rendimento real e rendimento nominal. Sendo assim, em serviço de utilidade pública, resolvi calcular e compartilhar com os leitores o rendimento real da caderneta de poupança.

Para isto fui no Ipeadata e peguei os dados de rendimento nominal da poupança e de inflação conforme medida pelo IGP-DI, a escolha foi por conta do próximo post que repete o exercício deste post com dados do rendimento Over/Selic. A série de rendimento da poupança que está disponível no Ipeadata começa em 1990 e vai até 2017, usei a série completa. A figura abaixo mostra a taxa de juro real da poupança. Repare que em vários anos a taxa fica negativa, em particular repare a queda de 15,36% em julho de 1994, quando do lançamento do Plano Real, e de 11,20% em fevereiro de 1990.  Isso quer dizer que se alguém tivesse fazendo uma poupança para se aposentar teria tido perdas reais significativas nestes períodos.




Naturalmente os valores positivos mais que compensam os negativos. De fato, a média da taxa de juro real em todo o período foi de 0,06%, dez vezes menor que a da simulação que vi circulando no FB! Se dividirmos por décadas a maior média ocorreu na década de 1990 e foi de 0,28% ao mês, menos da metade dos tais 0,65%. Na primeira década do século XXI a taxa de juro real média foi negativa, ou seja, em termos reais o dinheiro de quem aplicou na poupança diminuiu, o valor foi de -0.01%. Na década atual, como dados até fevereiro de 2017, a taxa foi de 0,056%, perto da média histórica e bem longe dos tais 0,65%. A figura abaixo mostra a taxa real da poupança em cada uma das décadas e no período completo.




Muito provavelmente alguém que fosse poupar para aposentadoria não colocaria o dinheiro todo na poupança, fundos de pensão não fazem isto. O objetivo do post não é comparar o rendimento que alguém pode conseguir no mercado com o “rendimento” da aposentadoria oficial, até porque tal comparação não é trivial. O objetivo do post é ajudar a quem está fazendo simulações usando rendimento real da poupança com valores altos demais a refazer suas contas. Alguns casos, particularmente de um certo meme que apareceu com alguma insistência na minha linha do tempo do FB, o objetivo do post talvez seja desmascarar mais uma falácia contra a reforma da previdência.
No próximo post, se der tempo sai ainda hoje, farei o mesmo exercício com a taxa de juros real do Over/Selic.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Poupança, Investimento... e Juros

É quase um consenso entre economistas, empresários, governantes e outros que se interessam pelas questões relacionadas à economia brasileira que temos uma baixa taxa de investimento. É difícil ler a seção de economia de um jornal sem esbarrar em algum empresário dizendo que o investimento é baixo por conta das altas taxas de juros, mais difícil ainda é encontrar alguém que tente explicar a razão de que mesmo com uma taxa de juros alta os brasileiros demandam mais capital do que ofertam, ou seja, nossa taxa de investimento, que expressa a demanda por capital, é maior que nossa taxa de poupança, que expressa nossa oferta de capital. Sendo os juros no Brasil tão altos e sendo os juros o “prêmio” por poupar era de se esperar que nossa taxa de poupança fosse alta. Alguém pode tentar argumentar que nossa taxa de poupança é baixa porque somos um povo muito impaciente de forma que nem com juros altos nos dispomos a poupar, é um caminho, porém uma das implicações desse argumento é que a taxa de juros no Brasil é baixa!

Como assim? Explico. Se a taxa de juros é o que se ganha por esperar um tempo para gastar o próprio dinheiro e nós somos muito impacientes é natural que a taxa de juros por aqui seja alta. Mas a taxa de juros já é alta! Por que deveria ser mais alta? Calma, não disse bem isso, disse que se ficarmos apenas com o argumento da impaciência então nossa taxa de juros devia ser mais alta. Isso é verdade porque, usando esse argumento, a taxa de juros deveria equilibrar a oferta de capital, ou seja, a poupança e a demanda por capital, ou seja, o investimento. Como mostra a figura abaixo a taxa de investimento no Brasil costuma ser maior do que a taxa de poupança, logo para equilibrar poupança e investimento a taxa de juros deveria subir.




A diferença entre a taxa de investimento e a taxa de poupança é financiada via poupança externa, ou seja, temos que “importar” capital para compensar nosso excesso de demanda por capital. O acúmulo de poupança externa, nome que se dá ao capital importado que chega a cada período, se torna dívida externa, uma variável que costuma tirar o sono de alguns economistas, especialmente a turma de esquerda. A dívida externa, como qualquer dívida, não é boa nem má em si, tudo depende que será feito com o capital. Se for usada em projetos com retorno alto o suficiente para pagar os juros e a dívida contraída a poupança externa fez um bem ao país, do contrário é mais complicado, mas é justo dizer que o país terá de buscar outra forma de pagar a dívida que contraiu para financiar o projeto ruim. Porém a dívida externa, que decorre da poupança externa, tem um complicador, trata-se do câmbio.

Quem me acompanha sabe que considero a fixação de economistas desenvolvimentistas com a taxa de câmbio um exagero desnecessário, na melhor das hipóteses, ou uma forma marota de justificar transferências de renda para indústria, hipótese que considero mais realista. É aí que aparece o complicador da poupança externa, se as empresas estão endividadas em moeda externa e nossa moeda é desvalorizada isso pode trazer sérios prejuízos para as empresas. Na realidade, parte dos problemas de endividamento que nossas empresas enfrentam começaram na grande desvalorização cambial dos últimos anos. Para economistas como eu uma dívida em dólares significa que a empresa tem mais uma variável para considerar quando for pegar empréstimos, para economistas que acreditam que a constante desvalorização do câmbio é o caminho para o crescimento, empresas endividadas em dólares são um pesadelo.

Como o leitor pode ver a coisa não é simples. Se não temos poupança interna para financiar nosso investimento o caminho é pegar poupança externa. O uso de poupança externa faz com que as empresas nacionais tenham de fazer seguros contra desvalorização cambial ou as coloca em posição de risco por conta de flutuações no câmbio, nos dois casos há um aumento no custo do capital. Uma maneira de acomodar o problema é o governo se financiar no exterior liberando o capital local para as empresas, para fazer isso o governo terá de elevar as taxas de juros que paga em seus títulos. A medida tem um efeito colateral de valorizar nossa moeda e facilitar a vida das empresas endividadas em dólares, mas usar esse caminho passa por aumento de juros o que reforça a tese que os juros brasileiros são baixos e precisam subir. Como não vou defender esta tese, sou um rapaz ajuizado, prefiro pensar na poupança interna.

Antes de pensar em elevar a poupança interna vale checar se nossa poupança é mesmo baixa. Para fazer isso peguei a base de dados do FMI atualizada em outubro de 2016 (link aqui), selecionei os anos entre 2006 e 2016, tomei as médias da população, taxa de investimento, taxa de poupança, dívida como proporção do PIB e PIB per capita corrigido por paridade de poder compra e finalmente excluí os países com menos de cinco milhões de habitantes na média do período. A figura abaixo mostra a taxa de poupança média em vários grupos de países, a taxa de poupança do Brasil, que foi de 18,2%, está destacada na figura. Repare que nossa taxa de poupança foi menor que a média dos países avançados, da comunidade de países independentes, dos países emergentes da Ásia e da América Latina e Caribe. Ficamos acima da média dos países emergentes da Europa e do Sub-Saara, essa última região apresenta problemas nos dados, por exemplo três países com taxas de poupança negativas, e será retirada das próximas figuras.




A figura com grupos facilita a comparação entre o Brasil e outros países, porém, omite informações que podem ser importantes. A próxima figura mostra a relação entre taxa de poupança em PIB per capita em todos os países da amostra excluídos os países do Sub-Saara. É fácil ver que a relação entre taxa de poupança de PIB per capita é positiva (é sempre útil lembrar que correlação não é causalidade), da mesma forma é fácil ver que o Brasil está abaixo da reta e abaixo do intervalo de confiança em volta da reta, ou seja, se considerarmos apenas o PIB per capita, não estou dizendo que isso é uma boa hipótese, a taxa de poupança no Brasil é mais baixa do que deveria ser. Destaquei na figura ao China, a Índia, a Rússia, o México e o Chile, os três primeiros por fazer parte dos BRICS (alguém ainda fala de BRICS?), o Chile por ser o país de referência na América Latina e o México por ser um país populoso e com o PIB grande como o Brasil. Nossa taxa de poupança é menor que a de todos os países em destaque.




Creio que neste ponto é justo dizer que a taxa de poupança no Brasil é baixa, falta saber a razão. O primeiro suspeito, a renda per capita, pode ajudar a explicar, mas não resolve o problema, como vimos nossa taxa de poupança é baixa quando comparada a taxa de poupança de países com renda per capita próximas à nossa. Uma segunda alternativa é o tamanho do governo, um governo grande pode levar à redução da poupança por ofertar seguros que substituem a poupança, voltarei a esse tema mais tarde, ou por reduzir a renda disponível das famílias. Aqui foi preciso um certo cuidado, usar o gasto público como medida do tamanho do governo é tentador, mas pode não ser adequado, a poupança de um país é a soma da poupança privada e da poupança do governo, esta última é dada pela diferença entre a renda e o consumo do governo e esse último é parte do gasto do governo. Para fugir deste problema usei o tamanho da dívida pública como medida de tamanho do governo, fiz com o gasto para checar e o resultado não muda muito, a figura abaixo mostra a relação entre taxa de poupança e dívida pública, o tamanho das bolinhas significa o PIB per capita, quanto maior a bolinha maior o PIB per capita.




A relação é negativa, ou seja, quanto maior a dívida pública como proporção do PIB menor a taxa de poupança, um resultado que não me deixou surpreso. Repare que novamente o Brasil fica abaixo da reta e abaixo do intervalo de confiança. O resultado sugere que, assim como o PIB per capita, a dívida pública ajuda a explicar nossa baixa taxa de poupança, mas não resolve o problema. Não é difícil tentar somar os efeitos do PIB per capita e da dívida pública ou até mesmo colocar outras variáveis, mas isso sairia do espírito do blog de apresentar as questões de forma simples para qualquer um que não tenha aversão a gráficos. Me contento em alertar ao leitor que o problema da baixa poupança no Brasil, que foi tratado no blog aqui e aqui, pode ser mais complicado do que parece. Como provocação deixo a sugestão que nossa baixa poupança pode estar relacionada ao nosso estado de bem-estar social, ao fornecer seguros que substituem a necessidade de poupar estados de bem-estar social tiram um importante incentivo à poupança, mas isso é conversa para outro post.


domingo, 14 de agosto de 2016

Precisamos falar sobre poupança...

Qualquer comparação entre os países da Ásia e os países da América Latina tem que levar em consideração a diferença entre a taxa de poupança dos países das duas regiões. Sem poupança um país é obrigado a recorrer ao mercado de capitais internacional para financiar o próprio investimento. Alguns economistas acreditam que recorrer a poupança externa é um problema, outros acreditam que não, mas poucos vão discordar que um país que necessita de poupança externa perde vários graus de liberdade na condução da política econômica, inclusive a capacidade de operar com câmbio como tanto pedem os economistas novo-desenvolvimentistas e um monte de empresários. A lógica foi explicada por Samuel Pessôa em recente artigo na Folha de São Paulo (link aqui):

“O aumento da taxa de investimento, com uma taxa de poupança doméstica estável, gerou a contínua piora das contas externas –pela necessária absorção de poupança internacional– e a consequente valorização do câmbio. Ou seja, caso não houvesse a valorização do câmbio e a maior absorção de poupança externa, a inflação teria sido maior.
Houve naquele período fortíssimo processo de acumulação de reservas, que contribuiu para moderar o processo de valorização. No entanto, no Brasil a acumulação de reservas não é muito efetiva para impedir um processo de valorização do câmbio, pois, devido à baixa poupança do setor público, o Banco Central tem que emitir dívida doméstica para recomprar os reais que emitiu para adquirir as reservas. Nos países asiáticos, que praticaram políticas próximas das defendidas pelos novos-desenvolvimentistas, a elevada taxa de poupança permite que a acumulação de reservas não pressione a liquidez e a inflação domésticas.
Chegamos sempre ao mesmo ponto: controlar o câmbio sem que o setor público tenha posição fiscal extremamente sólida só redunda em inflação. Por outro lado, se houver forte aumento da poupança pública, o câmbio real desvalorizar-se-á naturalmente.”

A diferença entre a taxa de poupança dos países emergentes da Ásia (não inclui a Coréia do Sul) e dos países da América Latina e Caribe é ilustrada na figura abaixo. Nela estão as médias da taxa de poupança dos países dos dois grupos entre 1980 e 2015, os dados são do FMI. Repare os países da Ásia poupam mais do que os da América Latina em todos os anos analisados. Para que o leitor perceba como o problema nos afeta a figura seguinte mostra a taxa de poupança no Brasil e na China entre 1980 e 2015. Aqui se aplica a máxima de “quem poupa tem”, inclusive tem condições de escolher entre um conjunto mais amplo de políticas econômicas.




A diferença entre a taxa de poupança dos países emergentes da Ásia e dos países da América Latina e Caribe também aparece quando levamos em conta o PIB per capita de cada país. A figura abaixo mostra a relação entre taxa de poupança e PIB per capita para todos os países em todos os anos da amostra. É fácil perceber que os pontos laranjas (países da Ásia) estão acima dos pontos verdes (países da América Latina e Caribe), mais fácil ainda se olharmos para as retas, elas sugerem que para um dado valor do PIB per capita a taxa de poupança nos países emergentes da Ásia é maior que nos países de nuestra América.




Se dividirmos a amostra por grupos de PIB per capita é possível que, dado um valor para o PIB per capita, a taxa de poupança nos países da Ásia é maior que a dos países da América Latina é maior em todos os grupos com exceção de um pequeno grupo de países muito pobres, ademais, só olhando a figura e sem fazer testes, é possível que a exceção seja explicada pelos pontos verdes que estão acima da nuvem de pontos verdes na figura do canto superior esquerdo.


Se é fácil mostrar que os países da América Latina e Caribe poupam menos que os países da Ásia, não é tão fácil explicar as razões da diferença. Uma possível explicação, que leva mais em conta a experiência brasileira, mas que pode ser adaptada para outros países da região, está ligada a tentativa de construir um estado de bem-estar social por estas bandas. Grosso modo podemos dizer que escolhemos entre comprar seguros e poupar. Se o seu carro está no seguro não faz sentido ter uma poupança para o caso de o carro ser roubado ou sofrer um acidente. Da mesma forma, se você tem um plano de saúde você não tem muitas razões para ter uma poupança caso tenha de fazer um tratamento em um hospital. De certa forma o estado de bem-estar social é uma forma de garantir seguros para todos os indivíduos de uma sociedade e, sendo assim, de reduzir a poupança da sociedade. Fique claro que tais seguros não são gratuitos, longe disso, assim como você paga pelo seguro do seu carro e pelo seu plano de saúde você paga pelo sistema de seguridade social, tal pagamento é feito por meio de impostos.

Se um indivíduo paga, mesmo que indiretamente por meio de impostos, para ter acesso a um sistema universal de saúde ou para garantir que o filho tenha escola mesmo que ele fique sem renda é razoável que esse indivíduo não faça poupança para tais situações. Não vou entrar aqui na questão da justiça de tais seguros, quero apenas registrar que tais seguros existem e que, existindo, afetam os incentivos existentes na sociedade. Também não estou apresentando uma explicação científica para a questão, é verdade que existe literatura a respeito de políticas sociais como forma de seguros, uma literatura que, a despeito do desincentivo à poupança, enxerga potenciais ganhos de bem -estar em políticas distributivas financiadas com impostos que causam distorções (para um guia a respeito desta literatura ver aqui), porém, para estabelecer a relação entre esta literatura e diferencias de poupança entre países da América Latina e emergentes da Ásia seria necessário bem mais que um post em um blog. O que estou fazendo é apenas levantar questões que podem servir de base para explicar nossa baixa taxa de poupança.

Explicações acadêmicas à parte não é difícil intuir que a garantias de direitos reduzem incentivos à poupança, até o Homer Simpson sentiu necessidade de poupar para que Lisa pudesse ir para uma boa Universidade. Em lugar onde as melhores universidades são “públicas, gratuitas e de qualidade” fica bem mais difícil criticar Lisa por apostar o dinheiro jogando poker na internet (link aqui)...




domingo, 3 de julho de 2016

Breve comentário sobre o bom desempenho econômico de Botswana

Botswana é um pais interessante. Ficou independente da Inglaterra em 1966, na época era um dos países mais pobres do mundo, depende fortemente de commodities e tem cerca de 70% do território ocupado pelo deserto de Kalahari. Difícil pensar em um país assim dando certo, mas Botswana está dando certo. O PIB per capita de Botswana aumentou quase dez vezes entre 1980 e 2015, para que o leitor tenha uma ideia, de acordo com os dados do FMI (link aqui), atualmente o PIB per capita de Botswana é maior que o do Brasil, em 1980 nosso PIB per capita era quase três vezes maior que o de Botswana. A figura abaixo mostra a evolução do PIB per capita do Brasil e de Botswana entre 1980 e 2015, menos do que fazer comparações o Brasil aparece nesta e nas próximas figuras para que o leitor possa ter uma referência de grandeza. Dito isso devo confessar que comparar um país exportador de commodities com o Brasil é sempre uma tentação, mas vou (tentar) resistir.




Uma característica comum entre Botswana e os países da Ásia que tiveram um excepcional desempenho econômico são as altas taxas de poupança e investimento. Tomando as médias de 1980 a 2015 nossas taxas de poupança e investimento foram respectivamente de 17,7% e 20%, em Botswana, no mesmo período, as taxas foram de 38,1% e 30,8%. Além de poupar mais e investir mais Botswana também poupa mais do que investe, na figura abaixo é possível ver que na maior parte do período a taxa de poupança fica acima da taxa de investimento. No Brasil acontece o contrário, via de regra a taxa de poupança é menor que a taxa de investimento, o que significa que além de investimos pouco temos de financiar parte de nosso investimento no resto do mundo. Não que o financiamento externo seja um problema, mas é uma característica que deve ser considerada quando analisamos o Brasil, principalmente pela turma que vive a pedir desvalorização cambial. As figuras seguintes mostram as taxas de investimento e poupança no Brasil e em Botswana.







Comparada ao Brasil a dívida pública de Botswana é baixa. Entre 1998 e 2015, dados anteriores a 1998 não estão disponíveis na base do FMI, o maior valor da dívida como proporção do PIB, alcançado em 2011, foi de 20,3%, em 2015 já havia caído para 17,8%. No mesmo período o maior valor no Brasil foi de 78,8% em 2002, depois disso começou uma trajetória de queda até chegar no mínimo de 60,4% em 2013, a partir daí a dívida voltou a subir de forma que em 2015 já alcançava 73,4% do PIB, quase mesmo valor de 2013.




Tem mais uma característica de Botswana que diferencia o país africano do Brasil. De acordo com o ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation (link aqui) Botswana é considerada uma economia majoritariamente livre (mostly free, link aqui) enquanto o Brasil é considerado uma economia majoritariamente não livre (mostly unfree, link aqui). No ranking geral o Brasil está na 122º posição enquanto Botswana está na 30º posição. A figura abaixo mostra a evolução dos países no ranking de liberdade econômica, vale registrar que em 1995 as duas economias eram consideradas majoritariamente não livres. De lá para cá os dois países ficara mais livres, porém Botswana parece ter ido mais fundo nas reformas liberalizantes, de forma que hoje Botswana ganha do Brasil em todos os quesitos do índice.



Não conheço a fundo a economia e a história dos países da África, dedico mais atenção à América Latina, sendo assim não arrisco dizer quais das muitas diferenças existentes entre Brasil e Botswana podem explicar que eles tenham crescido tão mais que nós. Existem questões culturais, demográficas e econômicas que podem explicar o ocorrido, entretanto não deixa de chamar atenção que um país coberto por um deserto, exportador de commodities, mas que poupa mais do que investe, que investe mais e poupa mais que o Brasil e que tem uma economia bem mais livre que a nossa conseguiu sair de uma situação de pobreza e alcançar uma posição de renda média enquanto nós não saímos da renda média. Também vale registrar que a combinação investir muito, poupar mais ainda e dar mais liberdade econômica aparece em várias experiências de sucesso econômico. Não arrisco estabelecer uma causalidade, mas não recomendo ignorar tais fatores em uma tentativa de explicar o sucesso de Botswana.



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Uma Nota a Respeito da Poupança

Taxa de poupança é uma variável delicada, é possível fazer várias leituras do papel que esta variável desempenha no processo de crescimento econômico. No Modelo de Solow para uma economia fechada, a taxa de investimento, que é igual à taxa de poupança, é um dos determinantes do nível de renda no longo prazo, mas não tem efeito de longo prazo na taxa de crescimento. No longo prazo a taxa de crescimento da economia é dada pela taxa de crescimento da produtividade total dos fatores.

Ocorre que o Modelo de Solow não trata de duas questões que são relevantes quando se discute poupança ou investimento. A primeira, que por sinal é explorada no livro do Piketty, é que se a poupança de um país é menor que o investimento então o país está trazendo poupança do exterior, o que significa que em algum lugar no futuro o país deverá enviar renda para o exterior. Marco Antônio Martins, de quem já falei aqui no blog, costumava me dizer que não devemos olhar PIB, devemos olhar PNB. A diferença entre PIB e PNB é a renda enviada para o exterior menos a recebida. Um país que envia mais renda para o exterior do que recebe, caso do Brasil, terá o PIB maior que o PNB.  Grosso modo podemos dizer que PIB mede a produção e PNB mede a renda. Sendo assim uma taxa de poupança baixa implica em baixo investimento ou no compromisso de enviar renda para o exterior. A segunda diz respeito a relação entre crescimento da produtividade e investimento. No Modelo de Solow esta relação não é trabalhada. Porém é muito razoável supor que maior taxa de investimento leve a maior crescimento da produtividade. Isto ocorre porque parte dos ganhos de produtividade decorre de novas tecnologias que estão embutidas em máquinas e equipamentos. Sem investimento a firma não tem acesso a estas tecnologias.

Sendo assim é possível dizer que uma taxa de poupança baixa comprometa a renda do país tanto pelo menor crescimento da produtividade quanto pela necessidade de enviar renda para o exterior em algum ponto no futuro. O perigo desse raciocínio é que pode sugerir que o governo intervenha para aumentar a taxa de poupança criando poupança forçada, esta é, por exemplo, a lógica do FGTS. Como poupança é uma variável endógena, ou seja, é escolhida pelos agentes econômicos, este tipo de intervenção tende a ser problemática, novamente vide o caso do FGTS. Feita a ressalva é preciso dizer que o governo pode agir na taxa de poupança por meio da estrutura de incentivos na economia.

A figura abaixo mostra a taxa de poupança média das 20 maiores economias do mundo entre 1993 e 2013. Reparem que a China e a Coréia se destacam com taxas de poupança acima de 30%. Depois vem outro grupo que se destaca com taxas entre 25% e 30%, nesse grupo estão Arábia Saudita, Rússia, Japão, Indonésia e Índia. A partir daí nenhum grupo se destaca. O Brasil, com uma taxa de poupança de 16,9% é o penúltimo da lista, entre a África do Sul e a Grã-Bretanha. É muito provável que a taxa de poupança no Brasil seja muito baixa para um país que ainda tem um enorme esforço de crescimento pela frente. Como vimos acima uma taxa de poupança nos condena a crescer pouco e/ ou nos obriga a enviar renda para o exterior. Duas situações que podem ser indesejáveis para o aumento da renda.



Uma questão imediata é saber a razão da taxa de poupança ser tão baixa no Brasil. Argumentos relacionados à renda per capita não me parecem suficientes, afinal o campeão da poupança é a China que tem renda per capita menor que a do Brasil. Creio que investigar os incentivos para poupança é um caminho mais promissor. Talvez um dos principais motivos para poupar seja garantir uma vida digna quando não for mais possível trabalhar, outro motivo seria garantir uma reserva para eventuais problemas de saúde, por fim, adquirir casa própria e mandar os filhos para boas universidades costumam ser motivos para poupar em alguns países. No Brasil temos um dos sistemas de previdência mais generosos do mundo. Além dos servidores públicos mais antigos todo trabalhador que ganha abaixo do teto da previdência se aposenta com salário integral, para não falar das aposentadorias por tempo de serviço e das pensões para viúvos ou viúvas. A maior parte da população conta com o SUS para problemas de saúde e mesmo a classe média prefere fazer seguros a se precaver por meio de poupança. Para completar as melhores universidades do país são públicas e gratuitas. Sobra apenas a compra da casa própria, que vem sendo cada vez mais facilitada por financiamentos com juros subsidiados. Visto assim não parece surpresa que a taxa de poupança no Brasil seja tão baixa. Poupar para quê?

A relação entre proteção social e baixa taxa de poupança é intuitiva, quanto mais seguro alguém tem menos razões para poupar. Porém chama atenção que a taxa de poupança do Brasil seja menor que a de países com forte estado de bem-estar, como França e Alemanha, que estão na figura e também Suécia (24,3%) e Dinamarca (24%.). Será a baixa poupança o resultado da combinação de estado de bem-estar com renda per capita baixa? É uma hipótese. Independente de qual seja a explicação não creio que o Brasil vá conseguir entrar em uma trajetória de crescimento de longo prazo com baixa poupança e com baixas taxas de crescimento da produtividade. Depois não adianta falar em tempestade perfeita ou colocar a culpa no resto do mundo...