Uma Nota a Respeito da Poupança

Taxa de poupança é uma variável delicada, é possível fazer várias leituras do papel que esta variável desempenha no processo de crescimento econômico. No Modelo de Solow para uma economia fechada, a taxa de investimento, que é igual à taxa de poupança, é um dos determinantes do nível de renda no longo prazo, mas não tem efeito de longo prazo na taxa de crescimento. No longo prazo a taxa de crescimento da economia é dada pela taxa de crescimento da produtividade total dos fatores.

Ocorre que o Modelo de Solow não trata de duas questões que são relevantes quando se discute poupança ou investimento. A primeira, que por sinal é explorada no livro do Piketty, é que se a poupança de um país é menor que o investimento então o país está trazendo poupança do exterior, o que significa que em algum lugar no futuro o país deverá enviar renda para o exterior. Marco Antônio Martins, de quem já falei aqui no blog, costumava me dizer que não devemos olhar PIB, devemos olhar PNB. A diferença entre PIB e PNB é a renda enviada para o exterior menos a recebida. Um país que envia mais renda para o exterior do que recebe, caso do Brasil, terá o PIB maior que o PNB.  Grosso modo podemos dizer que PIB mede a produção e PNB mede a renda. Sendo assim uma taxa de poupança baixa implica em baixo investimento ou no compromisso de enviar renda para o exterior. A segunda diz respeito a relação entre crescimento da produtividade e investimento. No Modelo de Solow esta relação não é trabalhada. Porém é muito razoável supor que maior taxa de investimento leve a maior crescimento da produtividade. Isto ocorre porque parte dos ganhos de produtividade decorre de novas tecnologias que estão embutidas em máquinas e equipamentos. Sem investimento a firma não tem acesso a estas tecnologias.

Sendo assim é possível dizer que uma taxa de poupança baixa comprometa a renda do país tanto pelo menor crescimento da produtividade quanto pela necessidade de enviar renda para o exterior em algum ponto no futuro. O perigo desse raciocínio é que pode sugerir que o governo intervenha para aumentar a taxa de poupança criando poupança forçada, esta é, por exemplo, a lógica do FGTS. Como poupança é uma variável endógena, ou seja, é escolhida pelos agentes econômicos, este tipo de intervenção tende a ser problemática, novamente vide o caso do FGTS. Feita a ressalva é preciso dizer que o governo pode agir na taxa de poupança por meio da estrutura de incentivos na economia.

A figura abaixo mostra a taxa de poupança média das 20 maiores economias do mundo entre 1993 e 2013. Reparem que a China e a Coréia se destacam com taxas de poupança acima de 30%. Depois vem outro grupo que se destaca com taxas entre 25% e 30%, nesse grupo estão Arábia Saudita, Rússia, Japão, Indonésia e Índia. A partir daí nenhum grupo se destaca. O Brasil, com uma taxa de poupança de 16,9% é o penúltimo da lista, entre a África do Sul e a Grã-Bretanha. É muito provável que a taxa de poupança no Brasil seja muito baixa para um país que ainda tem um enorme esforço de crescimento pela frente. Como vimos acima uma taxa de poupança nos condena a crescer pouco e/ ou nos obriga a enviar renda para o exterior. Duas situações que podem ser indesejáveis para o aumento da renda.



Uma questão imediata é saber a razão da taxa de poupança ser tão baixa no Brasil. Argumentos relacionados à renda per capita não me parecem suficientes, afinal o campeão da poupança é a China que tem renda per capita menor que a do Brasil. Creio que investigar os incentivos para poupança é um caminho mais promissor. Talvez um dos principais motivos para poupar seja garantir uma vida digna quando não for mais possível trabalhar, outro motivo seria garantir uma reserva para eventuais problemas de saúde, por fim, adquirir casa própria e mandar os filhos para boas universidades costumam ser motivos para poupar em alguns países. No Brasil temos um dos sistemas de previdência mais generosos do mundo. Além dos servidores públicos mais antigos todo trabalhador que ganha abaixo do teto da previdência se aposenta com salário integral, para não falar das aposentadorias por tempo de serviço e das pensões para viúvos ou viúvas. A maior parte da população conta com o SUS para problemas de saúde e mesmo a classe média prefere fazer seguros a se precaver por meio de poupança. Para completar as melhores universidades do país são públicas e gratuitas. Sobra apenas a compra da casa própria, que vem sendo cada vez mais facilitada por financiamentos com juros subsidiados. Visto assim não parece surpresa que a taxa de poupança no Brasil seja tão baixa. Poupar para quê?

A relação entre proteção social e baixa taxa de poupança é intuitiva, quanto mais seguro alguém tem menos razões para poupar. Porém chama atenção que a taxa de poupança do Brasil seja menor que a de países com forte estado de bem-estar, como França e Alemanha, que estão na figura e também Suécia (24,3%) e Dinamarca (24%.). Será a baixa poupança o resultado da combinação de estado de bem-estar com renda per capita baixa? É uma hipótese. Independente de qual seja a explicação não creio que o Brasil vá conseguir entrar em uma trajetória de crescimento de longo prazo com baixa poupança e com baixas taxas de crescimento da produtividade. Depois não adianta falar em tempestade perfeita ou colocar a culpa no resto do mundo...



Comentários

  1. Em países de baixa poupança, quem poupa colhe bons resultados. Minha renda fixa agradece.

    Sobre a China, creio que a altíssima taxa de poupança deles seja assim por falta de um mecanismo estatal de seguridade social.

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  2. Pô, Roberto, o certo é "renda per capita" e não "renda per capta". Por favor, a garotada lê o teu blog e vai aprender isso errado.

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    1. Desta vez eu corrigi, mas demorou para achar. Sou mais uma vítima dos que tiraram latim das escolas... e também da preguiça de corrigir e da confiança exagerada no corretor do Word. Se não ficar vermelho (ou eu não reparar que ficou vermelho) então está certo. Agradeço pela revisão voluntária.

      P.S. A garotada tem que ler o Blog e todos os comentários que frequentemente complementam o post, se não leu tudo eu não aceito reclamações.

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  3. Professor Roberto, boa tarde!
    O nosso histórico de alta inflação por longo período de tempo, e a conseqüente postura da população de realizar todo o consumo possível imediatamente com o objetivo de preservar o valor do dinheiro, não são uma explicação razoável para a nossa falta de poupança? Afinal, se o povo não está acostumado a ver o valor do dinheiro preservado no longo prazo, dificilmente acabariam escolhendo poupar ao invés de consumir.
    Abc!

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