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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Poupança e investimento: quem vai financiar uma eventual retomada do crescimento?


Se o Brasil vai mesmo entrar em uma trajetória mais forte de crescimento, tenho minhas dúvidas, é de se esperar um aumento da taxa de investimento. Nas contas nacionais referentes ao terceiro trimestre de 2019, últimas disponíveis, é possível observar um aumento significativo dessa taxa que, pela primeira vez desde 2015, ultrapassou os 17%. Ainda está longe do nível pré-crise, quando andava acima de 20%, mas cresceu tanto em relação ao trimestre anterior quando em relação ao mesmo trimestre de 2018.

O aumento da taxa de investimento e a necessidade de mais aumento dessa taxa para que a economia volte a crescer, crescimento puxado por produtividade ainda deve demorar, coloca questões importantes. Uma delas é como fazer para evitar os investimentos ruins que nos levaram a atual crise, esse é um tema fundamental que tratei em outros lugares e que não vou discutir nesse post. A questão que quero colocar aqui é como será financiado esse aumento do investimento. A taxa de poupança não mostra o mesmo crescimento da taxa de investimento e a queda dos juros dificulta a atração de dólares do exterior, de fato, temos notícia de grande saída de dólares em 2019 (link aqui).

A figura abaixo ilustra o problema, seguindo a estratégia do IBGE na apresentação das contas trimestrais para deixar a figura menos confusa, estão ilustrados apenas as taxas referentes ao terceiro trimestre de cada ano. Repare o crescimento da taxa de investimento maior que o da taxa de poupança. Salvo uma grande e inesperada reviravolta no comportamento da taxa poupança essa diferença deve ficar ainda maior se a economia voltar mesmo a crescer. No último trimestre de 2019 a diferença entre taxa de investimento (17,6%) e taxa de poupança (13,5%) chegou a 4,1% do PIB.




Como essa diferença é financiada? Grosso modo, deixando de lado detalhes técnicos de contabilidade nacional, dá para dizer que para bancar essa diferença temos que pegar dinheiro com os estrangeiros. Por que “os gringos” nos emprestariam esse dinheiro? Essa pergunta é mais difícil de responder. Nos últimos anos as altas taxas de juros atraiam o capital necessário para financiar nosso investimento, como vimos essa alternativa pode ser comprometida por conta da queda de juros. A forte saída de dólares no ano passado reforça essa suspeita.

Considerando apenas dados de terceiro trimestre a diferença entre taxa de investimento e taxa de poupança passou dos 4% apenas em 2001, ano do racionamento e de problemas nas contas externas; 2010, ano que o governo usou e abusou de estímulos para conseguir um crescimento de mais de 7%; e 2014, outro ano em que o governo usou e abusou de estímulos para tentar adiar a crise que já era inevitável. Que o terceiro trimestre de 2019 esteja em tão más companhias é motivos para que chatos, como eu nunca neguei que sou, fiquem com a pulga atrás da orelha.

A figura abaixo mostra a série completa da diferença entre a taxa de investimento e a taxa de poupança. Quem tem mais idade ou acompanha a economia brasileira talvez lembre que 2001 foi o ano que FHC decretou o “exportar ou morrer” (link aqui), um período atribulado onde a restrição externa era ameaça constante. Com a recuperação da economia e as reformas do primeiro mandato de Lula o cenário reverteu e passamos a precisar de pouco financiamento externo, em alguns trimestres tivemos mais poupança do que investimento. A partir de meados da década passada começa a guinada na política econômica de Lula que é reforçada com a crise de 2008, a necessidade de financiamento externo começa a aumentar. Após o pico pré-crise, onde a diferença chegou a 5% do PIB, a forte queda da taxa de investimento reduziu nossa necessidade de buscar financiamento externo.




O aumento da necessidade financiamento externo ocorrido nos últimos trimestres significa que estamos repetindo erros do passado? Não. É perfeitamente possível depender de capital externo desde que o país seja atrativo e que os recursos não sejam destinados a projetos ruins. Os esforços da equipe econômica para tornar o país mais atrativo e reduzir as causas dos investimentos ruins são dignos de registro, não são poucas as declarações do Paulo Guedes ou do Adolfo Sachsida apontando nessa direção.

O problema é que, como dizia Mario Henrique Simonsen, coração não é feito de tripas. Mesmo com a reforma da previdência, a MP da Liberdade Econômica, a flexibilização de algumas leis trabalhistas, o teto de gastos e outras medidas importantes tomadas desde o governo Temer, o Brasil continua tendo uma dívida pública gigantesca para padrões de países emergentes e nosso ambiente de negócios ainda é muito hostil aos empreendedores. Estariam os estrangeiros dispostos a mandar dólares para cá com juros a 4,5% e o sobe e desce do real junto com nossos problemas fiscais? Estariam os estrangeiros dispostos a investir em projetos por aqui com nosso caos jurídico? Quanto mais pode subir nossa poupança? Qual a diferença entre taxa de investimento e taxa de poupança que podemos suportar e por quanto tempo? O quanto deve subir a taxa de investimento para a economia crescer?

São perguntas importantes com respostas difíceis. A saída de dólares sugere que os estrangeiros não estão muito dispostos a nos financiar com essa combinação de taxa de juros e ambiente macroeconômico. O aumento do investimento estrangeiro direito sugere que “os gringos” podem estar tomando coragem de investir por aqui, mas é preciso ajustar por privatizações que podem ter distorcido o número e saber o tamanho da coragem. As outras perguntas eu não arrisco responder, no máximo registro que se a taxa de investimento tiver de chegar a 20% vamos precisar de uma taxa de poupança de pelo menos 15% para não voltarmos ao “exportar ou morrer” do começo do século. Não é impossível, mas também não é fácil.


domingo, 15 de outubro de 2017

Colocando lenha na fogueira: correlação e causalidade em crescimento econômico.

Hoje, em sua coluna na Folha, Samuel Pessôa pergunta se indústria causa desenvolvimento (link aqui). Como mote coloca um resultado apresentado pelo meu colega de departamento, José Oreiro, mostrando a correlação positiva entre renda per capita e complexidade da economia em diversos países (link aqui). Samuel desenvolve seu argumento nos lembrando que existem outras variáveis que também estão correlacionadas com PIB per capita, por exemplo educação, e que também podem levar a uma economia complexa, nas palavras dele:

“É razoável supor que um sistema de educação de elevada qualidade seja capaz de causar ambos: crescimento econômico e complexidade produtiva. Fato esse que será ainda mais verdadeiro se o país não for muito dotado em recursos naturais –pois, se assim for dotado, como é o caso australiano, haverá outras oportunidades de desenvolvimento econômico.”

Para o leitor que não é chegado em estatística vale um exemplo que corre a internet e costuma ser usado em cursos de análises de dados. Segundo a história, que não tenho a menor ideia se é verdadeira, um pesquisador encontrou uma forte correlação positiva entre vendas de sorvete e ataques de tubarão em uma determinada praia. Seriam os tubarões atraídos por sorvetes? Será que ao comer sorvete os banhistas ficavam mais displicentes e se tornavam alvos mais fáceis para os tubarões? Nada disso. O que ocorre é que em dias quentes as pessoas tomam mais sorvete e vão mais à praia, não são os sorvetes que causam os ataques de tubarão, é o calor que causa que as pessoas tomem sorvetes e se exponham a ataques de tubarão.

Fenômeno parecido pode ocorrer com correlações observadas em economia em geral e crescimento econômico em particular. Para uma discussão mais elaborada recomendo o artigo “A Sensitivity Analysis of Cross-Country Growth Regressions” de Ross Levine e David Renelt publicado em 1992 na American Economic Review (ERA, v.82, n.4, pp.942-962). No artigo os autores mostram como correlações entre algumas variáveis e crescimento desaparecem quando outras variáveis são colocadas no modelo. A conclusão de Levine e Renelt é que das variáveis usadas e no período considerado apenas a taxa de investimento e a parcela de comércio no PIB são robustas para explicar crescimento. Quem se interessou e quiser um contraponto ao artigo recomendo dar uma lida em “I Just Run Two Million Regressions” publicado em 1997 por Xavier Sala-I-Martin na mesma American Economic Review.

O problema encontrado por Levine e Renelt é da mesma natureza que o apontado por Samuel Pessôa: como as variáveis usadas para explicar crescimento costumam estar relacionadas umas com as outras fica difícil encontrar efeitos de causalidades por meio de regressões. Para buscarmos por causalidade precisamos ir além das regressões, precisamos fazer experimentos ou encontrar experimentos naturais que permitam inferir relação causal, na falta de experimentos outras técnicas podem ser usadas, como é o caso de variáveis instrumentais, mas é preciso usar destas técnicas com moderação e desconfiança. Um amigo estatístico cera vez se referiu a variáveis instrumentais como uma magia negra inventada por economistas. Magia negra as vezes até funciona, mas cobra um preço alto de quem usa.

Para ilustrar o ponto do Samuel Pessôa vou fazer um exercício inspirado pelo texto dele na Folha. No texto Samuel escreve;

“Adicionalmente, esse fato deve ser ainda mais verdadeiro se o país, além de ter um excelente sistema público de educação e de ser pobre em recursos naturais, possuir um setor público que gaste pouco com seguridade social –sendo, portanto, um país em que a carga tributária é baixa e a poupança das famílias é muito elevada.

Se o leitor lembrou do caso asiático (Japão, Coreia, Taiwan e China) não foi mera coincidência. Muita educação de qualidade –reduzindo o custo do trabalho qualificado– e muita poupança –o que reduz o custo do capital– estão na origem da complexidade produtiva.”

Não tenho às mãos uma medida de complexidade, pelo menos não achei em uma busca rápida nas bases que tenho já arrumadas para o blog (Banco Mundial, FMI e PWT), e não tenho o PISA, até tenho, mas é muito recente para o exercício. Desta forma no lugar de complexidade vou usar participação da manufatura do PIB, média entre 1978 e 1983, para explicar a taxa de crescimento entre 1980 e 2014. Os dados de manufatura são do Banco Mundial e os de crescimento foram obtidos a partir de dados da PWT, foram considerados países com mais de um milhão de habitantes por volta de 1980 o que deixou uma amostra de sessenta e oito países. A figura abaixo mostra a reta de regressão entre as duas variáveis.




O coeficiente da manufatura como proporção do PIB é positivo e significativo a 5%. Com tais resultados alguém poderia ser tentando a concluir que alta participação da manufatura no PIB por volta de 1980 causou maior crescimento entre 1980 e 2014. O resultado muda se acrescentarmos taxa de poupança e educação. Na falta do PISA vou usar gasto em educação como proporção do PIB, a ideia é que quanto maior o gasto melhor será a educação, o que não é necessariamente verdade (link aqui), mas dá para o gasto. A taxa de poupança é a da base de dados do Banco Mundial. A tabela abaixo mostra as duas regressões.



Taxa de Crescimento

Modelo 1
Modelo 2
Manufatura/PIB
0,053**
(0,025)
0,039
(0,026)
Taxa de poupança

0,018
(0,013)
Gasto em educação (%PIB)

-0,146
(0,129)
Constante
1,715***
(0,434)
2,135***
(0,649)
Observações
68
68
R2
0,063
0,100
R2 ajustado
0,049
0,058
Estatística F
4,455** (df=1; 66)
2,365*(df=3; 64)
Nota:                                                                                                                  *p<0,1;   **p<0,05;   ***p<0.01

Como pode ser observado na presença da taxa de poupança e de uma medida, mesmo que ruim, de capital humano, a relação entre taxa de crescimento e participação da manufatura deixa de ser significativa. Porém, ao contrário da história dos ataques de tubarão, não encontramos a variável que está faltando, aquela que explica todas as outras. Alguns vão dizer que são as instituições, outros que é a complexidade, outros que é uma melhor medida de capital humano e por aí vai. A verdade é que dificilmente a variável será encontrada por meio de regressões e correlações, para estabelecer relações de causalidade vamos precisar de mais dados e mais experimentos naturais ou idealizados. Até lá vamos ter de usar a teoria, mas isso não quer dizer que vale tudo, modelos teóricos bem construídos dão o caminho para que escolhamos quais variáveis entram nos modelos econométricos, testes realizados por vários autores ajudam a refinar a intuição.

O que posso dizer é que variáveis como câmbio, participação da manufatura no PIB e mesmo a complexidade ainda não estão presentes em vários artigos e livros texto de crescimento econômico usados nas melhores e mais destacadas escolas do mundo. Para tomar um exemplo, no texto do Levine e Renelt foram usadas mais de cinquenta variáveis, incluindo número de revoluções e golpes de estado por ano, índice de liberdade civis e inflação, mas entre elas não aprecem nem câmbio nem manufatura.