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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Desigualdade, Riqueza e Pobreza: Quanto é o Máximo que você Ganharia em um Mundo Igualitário?

Nos últimos dias mais uma vez apareceram discussões no FB a respeito de pobreza e desigualdade. Em tais discussões sempre aparece alguém dizendo que se a renda do mundo fosse distribuída de forma igualitária não haveria mais pobreza, outros dizem que todos viveriam bem e, por fim, há quem diga que seriam todos ricos. A discussão é capciosa, a verdade é que os conceitos de pobreza e riqueza são relativos. Um homem muito rico que tenha vivido no começo do século XX provavelmente tinha acesso a menos bens e serviços que esse professor que vos escreve. Um homem que viva sozinho nos EUA ganhando U$ 1.000 por mês (cerca de R$ 2.650) lá é considerado pobre, aqui estaria na classe média alta. Mesmo sabendo de tudo isto resolvi fazer uma conta boba e sem muita aplicação, mas que pode ser útil para que cada um possa avaliar como está hoje em relação a um hipotético mundo onde todos tenham a mesma renda. A conta consiste em calcular o PIB per capita do mundo e trazer para valores brasileiros.

A conta é boba porque ignora os incentivos aos quais os agentes econômicos estão respondendo. Como professor universitário tenho um salário que, mesmos sendo considerado baixo por vários colegas, está muito acima do salário médio do Brasil. Ocorre que eu também considero meu salário baixo e para resolver isto procuro complementar minha renda com pesquisas e parcerias com órgãos públicos ou privados externos à UnB, tudo dentro da lei como atestam os pareceres da procuradoria jurídica da UnB, sem tal parecer o convênio não é assinado. Será que eu buscaria tais projetos se eu não pudesse aumentar minha renda com eles? Creio que não. Da mesma forma acredito que médicos que fazem vários plantões, vendedores que se esforçam para bater metas de vendas e tantos outros que “correm atrás” de um extra no final do mês deixariam de fazer o que fazem se não pudessem receber o tal “extra”. Mesmo sabendo de tudo isso resolvi deixar de lado os incentivos (oh, o pecado!) e supor que um mundo alternativo onde todos ganhassem exatamente a mesma coisa seria capaz de gerar a mesma renda que o mundo gerou em 2013. Quanto cada um ganharia neste mundo alternativo?

Para responder a pergunta fui buscar os dados de PIB do mundo na base de dados do FMI (link aqui). Em 2013 o PIB do mundo foi de US$ 77,6 trilhões se usarmos dólares correntes e US$ 101,9 trilhões se usarmos correção por paridade de poder de compra (PPP), uma tentativa de corrigir por diferentes níveis de preços nos diversos países. Pelos números do Population Reference Berau (link aqui) em 2013 existiam 7,14 bilhões de pessoas no mundo. Desta forma o PIB per capita do mundo em 2013 foi de US$ 10.874 se usarmos dólares correntes e de US$ 14.282 se usarmos correção por poder de compra. Nos dois casos o PIB per capita do mundo fica próximo ao PIB per capita do Brasil. De acordo com os dados do FMI o PIB per capita do Brasil em de 2013 foi de US$ 11.172 usando dólar corrente e de US$ 14.297 usando paridade do poder de compra. No primeiro caso o PIB per capita do mundo é equivalente a 97,3% do PIB per capita brasileiro, no segundo é equivalente a 95,3%.

O passo seguinte foi calcular o PIB per capita brasileiro de 2013 em reais. Pelos números do Ipeadata (link aqui) em 2013 o PIB do Brasil foi de R$ 4,8 trilhões e a população era de 201 milhões. Desta forma o PIB per capita do Brasil em 2013 foi de R$ 24.099, ou seja, em 2013 se todos os brasileiros tivessem a mesma renda cada um ganharia R$ 2.008 por mês. Aplicando os percentuais do parágrafo acima é possível trazer para a realidade brasileira os números para o mundo. Pelo o primeiro método se a renda do mundo fosse distribuída igualmente cada habitante do planeta ganharia o equivalente a R$ 1.954 por mês, pelo segundo método ganharia R$ 1.913 por mês. Há ainda uma terceira alternativa, calcular o PIB per capita do mundo em dólares correntes e trazer para reais usando o câmbio médio de 2013, com este método no mundo igualitário cada habitante ganharia R$ 1.957 por mês. Considerando os três métodos me parece justo dizer que no mundo igualitário que imaginei cada habitante ganharia cerca de R$ 1.950 por mês.

Como alertei este número não significa muita coisa, é muito provável que em um mundo igualitário o PIB fosse bem menor que o do nosso mundo, mas o número serve de referência. Se você acredita que para viver com dignidade basta ganhar o equivalente a R$ 1.950,00 então você acredita que, na melhor das hipóteses, um mundo igualitário permitiria que todos tivessem uma vida digna, porém, se você acredita que não é possível levar uma vida digna ganhando R$ 1.950,00 por mês então você acredita que nem mesmo na melhor das hipóteses um mundo igualitário permitiria uma vida digna a todos. Faça as contas e veja de que lado você está.




sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Mais dados, desta vez sobre pobreza.

No post anterior falei sobre a distribuição da renda média dos países do mundo. Mostrei que pelos dados da Penn World Table não é possível falar que os países pobres foram os perdedores da globalização. A análise simples dos dados sugere o contrário, países pobres cresceram mais que países ricos. Neste post vou falar sobre pobreza. O fato de países pobres terem crescido mais que países ricos não implica em redução na pobreza mundial, é possível que a renda dos países pobres esteja se concentrando nas mãos dos mais ricos destes países. Neste caso o aumento da renda média não implica em aumento da renda dos mais pobres. Olhemos para os dados relativos a pobreza.

Como a Penn World Table não trata de pobreza desta vez os dados utilizados serão do Banco Mundial, especificamente da Poverty &Equity Data. Se é para falar de pobreza é melhor começar por onde o problema é mais grave: a África subsaariana. É comum ver na Internet ou em revistas e jornais estatísticas assustadoras a respeito da miséria nesta região, qualquer pessoa normal sente algum mal estar quando se depara com imagens de crianças passando fome e/ou com estatísticas mostrando que o número de miseráveis (pessoas que vivem com menos de $1,25 por dia, corrigidos por PPP) nesta região mais que dobrou entre 1981 e 2010. Eram pouco mais de 200 milhões de pessoas nesta situação em 1981 e em 2010 já passavam de 400 milhões. Números como este são desconcertantes para civilização, é inaceitável que em pleno século XXI com todas as técnicas de produção agrícolas que dominamos pessoas passem fome.

O impacto dos números é tão forte que dificulta nosso raciocínio, e disto se aproveitam os críticos do livre mercado. O aumento do número de miseráveis foi maior ou menor que o aumento da população? Sem considerar este efeito qualquer análise está comprometida, pior, é possível que os mecanismos que criam miséria passem a ser defendidos por pessoas que sinceramente querem o fim da miséria. É como um obeso fazendo dieta que ao perceber que ainda é o mais gordo da turma afirma que a dieta não funciona e ignora que antes da dieta ele pesava duas vezes a média da turma e agora pesa uma vez e meia a média. Mas deixemos de coisa e cuidemos da vida, vamos aos números. A percentagem de miseráveis na África subsaariana era 56,5% em 1981 e caiu para 48,5% em 2010. O pico foi de 59,4% em 1993, curiosamente na década de 1990, o auge de neoliberalismo, começou o processo de queda na proporção de miseráveis, foram mais de dez pontos percentuais de queda entre 1993 e 2010! Entre 1993 e 2010 também caíram as proporções do que vivem com menos de $2,50 por dia e dos que vivem com menos de $5,00 por dia. A figura abaixo ilustra a proporção dos que ganham menos de $1,25 por dia, as outras podem ser obtidas aqui.




Mas a África é distante, entre nossos intelectuais não faltam os que acreditem que a miséria está aqui em nuestra América. Continente devastado pela exploração do império, pelas políticas neoliberais, pelo FHC, pelo aquecimento global, pelo ET de Varginha e pelo homem do saco. A figura abaixo ilustra a proporção dos que vivem com menos de $1,25 por dia na América Latina. Eram 11,9% da população em 1981, subiu para 13,6% em 1984 e chegou a 5,5% em 2010. No Brasil ocorreu fenômeno semelhante, em 1990 o percentual dos que viviam com menos de $1,25 ao dia era 17,2% da população, este percentual subiu a 17,9% em 1992 e, a partir deste ano começou a cair. Em 1995 já era 11,3% (há quem diga que o Plano Real foi ruim para os pobes!), em 2002 estava em 10,6%. Caiu continuamente até 2008 quando chegou a 6%, em 2010 subiu para 6,1%.




A verdade é que pela maioria dos conceitos utilizados para medir pobreza existem muito mais pobres e miseráveis do que deveriam existir, mas existem cada vez menos pobres em proporção a população total. Dizer o contrário é ir contra os dados, pode servir a propaganda, mas não serve para ajudar aos miseráveis. Se quisermos mesmo ajudar os miseráveis temos que estudar com cuidado o que aconteceu a partir de meados da década de 1980 e tentar fazer mais disto. Na minha avaliação não é coincidência que a redução da pobreza tenha ocorrido na mesma época das reformas pró-mercado. Posso estar errado, mas quero ver números.