Escrevo este post apenas para não deixar em branco a declaração
de José Serra dizendo ser folclore a afirmação que a economia brasileira é
fechada, especificamente Serra disse: "O Brasil não é uma economia mais
fechada do que a média mundial, apesar do folclore encontrado. Isso é
folclore" (link aqui). Como tudo que é ruim pode piorar Serra complementou
afirmando que: “Quando alguém te disser [que a história mostra uma posição
muito fechada do Brasil], pode dizer o seguinte: 'o ministro de Relações
Exteriores disse que essa sua afirmação é folclórica'.". Odorico Paraguaçu e o coronel Ramiro Bastos teriam aplaudido o estilo do ministro tucano.
Muita gente já mostrou que a declaração do ministro não bate
com os dados, porém, dado o histórico de Serra, não podemos nos dar o luxo de
pensar que a declaração foi um descuido ou falta de informação. Não dou a o
ministro o benefício da dúvida e nem muito menos me dou ao luxo de ter tal tipo
de ingenuidade. Serra é um histórico defensor de políticas de transferência de
renda para a indústria e é nesse contexto que a frase deve ser entendida. O que
Serra está fazendo é tentando preparar terreno para políticas de estímulo e/ou
proteção à indústria. No lugar de repetir o que já foi dito me limito a recomendar um
post do Terraço Econômico (link aqui), um post de 2015 do Octaviano Canuto no blog Beyond
Brics que vi nos comentários do post do Terraço Econômico (link aqui) e um post
do Maurício Bento no Mercado Popular (link aqui) e colocar uma série de
gráficos mostrando o que os dados dizem sobre o que o ministro chamou de
folclore.
Para fazer os gráficos peguei a Penn World Table 9.0 (link aqui),
selecionei os últimos cinco anos disponíveis (2010 a 2014), exclui os países
com menos de dez milhões de habitantes e tomei as médias do grau de abertura,
definido como a soma das exportações e das importações como proporção do PIB,
para estes anos. Escolhi oito variáveis que, por algum motivo, me pareceram
úteis para relacionas com o grau de abertura, se alguém sentiu falta de alguma que
está na PWT e não está no posto é só me dizer que faço o gráfico. Gostaria de
ter colocado a extensão territorial de cada país, número de vizinhos e
distância entre os principais polos econômicos de cada país, mas a PWT não tem
esses dados, fica para um próximo post.
O primeiro gráfico é população, a ideia é que por ser grande
o Brasil teria menos comércio com outros países, afinal temos gente o suficiente
para comercializar dentro de nossas fronteiras. Se não está claro considere os
casos extremos de um país como apenas uma família e um país que consista em
todo o planeta, o primeiro terá um grau de abertura muito alto, afinal toda
venda ou compra é externa, e o segundo terá grau de abertura zero. Assim como
em todos os gráficos o Brasil é o ponto laranja, repare que, dada nossa
população, nosso grau de abertura é menor que o previsto, pouco menor, é fato,
se colocássemos um intervalo de confiança estaríamos dentro do intervalo, mas ainda
assim é menor, pior, em todos os outros gráficos estaríamos fora do intervalo
de confiança. Salvo engano o Carlos Eduardo Gonçalves (link aqui) postou uma
figura com grau de abertura e população e também encontrou que nosso grau de
abertura é baixo dado o tamanho de nossa população, não achei o link da figura.
Outra variável que mede tamanho é o PIB, países com PIB
grande tendem a comercializar menos com outros países, é o caso dos Estados
Unidos, que apesar de ser uma economia com pouca proteção tem um baixo grau de
abertura. Um exemplo de casos extremos semelhante ao que fizemos para a
população pode ajudar a entender a relação entre grau de abertura e PIB. Entretanto,
ao contrário do tamanho da população, o PIB captura um elemento de uso
eficiente de recursos que, se estiver ligado ao grau de abertura, eu acredito
que está, pode inverter a relação. Aqui estamos muito abaixo do esperado dado o
nosso PIB.
A próxima variável é o PIB per capita, a relação aqui não é
tão clara, de fato é bem possível que a abertura cause PIB per capita, mas de
toda forma coloquei e o gráfico e, para surpresa unicamente do ministro José
Serra, nosso grau de abertura ficou bem abaixo do esperado dado o tamanho do
nosso PIB per capita.
O gráfico abaixo mostra a relação entre grau de abertura e
estoque de capital, assim como população e PIB o estoque de capital ajuda a capturar
o tamanho da economia. Mais uma vez estamos bem abaixo do esperado.
Consideremos agora a taxa de investimento. Seria nossa baixa
taxa de investimento a razão para nosso baixo grau de abertura? Não parece ser
o caso, considerando a taxa de investimento nosso grau de abertura também é
baixo.
Seriam os preços? Os preços por aqui são baixos e não vale à
pena comprar máquinas no exterior? Não é o caso, dado o nível de preços do
investimento por aqui o grau de exportação também é muito baixo.
Seria o preço do capital? Também não, dado o nível de preço
do capital o nosso grau de abertura também é muito baixo.
Preços das importações? Também não...
Enfim, para todas as variáveis que escolhemos o grau de
abertura ficou bem menor que o esperado dado a variável explicativa, a única
exceção foi a população, que ficou abaixo do esperado, mas próximo o suficiente
para argumentar que está dentro do esperado. Quanto a afirmação original do
ministro, que o Brasil não é mais fechado que a média mundial, os dados mostram
que a média do grau de abertura dos países da amostra foi de 0,50; o grau de
abertura do Brasil foi de 0,28. Estamos abaixo da média, estamos abaixo da
mediana, que foi de 0,40, na verdade estamos entre os 25% países mais fechados
do mundo. Se Serra quer mandar dinheiro para a turma da indústria é melhor
arrumar outros argumentos, tamanha negação da realidade, nem mesmo Mantega, em
seus piores momentos, teve a cara de pau de fazer.








