O Clube dos Céticos costuma ser duramente cobrado e acusado
nos tempos de bonança, principalmente por empresários, políticos que ocupam o
poder e, pior de todos, pelos apoiadores dos políticos que ocupam o poder. Já
os esperançosos costumam ser cobrados em momentos de crise como o que estamos
vivendo. Sendo eu membro ou pelo menos aspirante ao Clube dos Céticos não vou
perder a oportunidade de pegar no pé de Mendonça de Barros, o homem do Clube
dos Esperançosos.
Comecemos por um texto publicado no Valor Econômico em
janeiro de 2012 (link aqui). No texto Luís Carlos Mendonça de Barros aponta o
ativismo econômico do governo Dilma como uma possível fonte de problemas e faz
referências ao arcabouço teórico de economia de Dilma que seria mais claro e
sofisticado que o de Lula. Ironias à parte o trecho que quero destacar do
artigo é o seguinte:
“Nas minhas palestras e encontros com investidores e empresas - no país e no exterior - tenho citado este fato para mostrar que considero o Brasil o mais estável e seguro dos Brics. E digo ao leitor do Valor que esse ponto marca muito a opinião de meus ouvintes.”
Leiam o texto com cuidado e vejam como é difícil encaixar o
trecho acima na análise que o autor realiza, fosse Mendonça de Barros um membro
do Clube dos Céticos a análise que fez no texto o levaria a não recomendar o
Brasil ou pelo menos recomendar com muita cautela, como ele é do Clube dos
Esperançosos chegou a conclusão contrário e listou o Brasil como o “mais
estável e seguro dos Brics”. Basta olhar a trajetória do câmbio para ver que os
investidores que seguiram o conselho de Mendonça de Barros devem estar bastante
contrariados...
Ainda em janeiro de 2012 Mendonça de Barros escreveu para o
UOL um texto chamado “Minha Bola de Cristal para 2012” (link aqui) onde dizia que:
“No caso do Brasil, mantenho a visão de que vamos continuar crescendo entre 3% e 3,3%, com uma taxa menor nos dois primeiros trimestres do ano e uma aceleração na sua segunda metade.”
Em 2012 a economia brasileira cresceu 1%! No mesmo texto ele
justifica o prognóstico dizendo que:
“A fonte principal do crescimento continuará a vir do consumo interno, sustentado pelo aumento dos salários, do emprego e do crédito ao consumo. Nesse cenário, o Brasil vai continuar a receber volumes expressivos de investimentos internacionais e, com isso, conseguir complementar nossa escassa poupança interna e permitir manter um nível decente de investimentos.”

Sigamos para 2014. Em janeiro daquele ano Mendonça de Barros
em entrevista ao Valor Econômico reproduzida em várias páginas na internet
(link aqui) afirmou que:
“A expectativa errada foi criada por analistas que achavam que estávamos à beira do precipício. Eu nunca comprei essa teoria, portanto esse número não me causa surpresa. Mas se a economia cresceu 2,3% no ano, ao se pegar o quarto trimestre de 2013 contra o quarto de 2012, o crescimento já é menor, de 1,9%. O que quer dizer que, na ponta, a economia já está desacelerando, por isso a previsão para 2014 é de alta de 1,7% ou 1,8%. Ao se olhar a curva das vendas do varejo, que é uma proxy do consumo, ela vinha crescendo 10% em termos reais entre 2010 e 2011, e hoje cresce 4%. A terapia é correta. Mas isso leva a um crescimento mais baixo.”
Em 2014 a economia só não teve crescimento negativo por
conta de uma mudança na metodologia de cálculo do PIB feita pelo IBGE, mesmo
com a mudança o crescimento foi de 0,1%. Um cético teria aprendido com o erro
de 2012 e não teria dado a seguinte declaração a respeito dos que acertadamente
previam que 2014 seria um ano muito ruim:
“Pessimismo é exagerado porque boa parte dos agentes substituiu o cérebro pelo fígado e essa é a pior coisa que pode acontecer para um analista econômico.”
Quem diria... ou o fígado pensa melhor do que o cérebro ou
não eram bem os pessimistas que estavam pensando com o fígado. Novamente
acredito que um pouco mais de ceticismo ou pessimismo e um pouco menos de
esperança Mendonça de Barros teria visto claramente que os erros no setor
energético e no superávit primário eram maiores, mais desastrosos e tinham mais
companhias do que olhos dominados pela esperança poderiam enxergar.
Deixei o trecho mais marcante para o final. O texto não era
exatamente sobre o Brasil e sim um conjunto mais amplo de países compostos
pelos Brics mais Argentina, Chile, Indonésia e Turquia. O trecho é de um texto
publicado no Valor Econômico (link aqui) e reproduzido em vários blogs, leiam com atenção:
“Tenho manifestado minha opinião de que não acredito no cenário de catástrofe que os mercados vêm precificando. Repito aqui a mesma confiança nos ajustes não traumáticos - induzidos pela ação dos governos - pelos quais passam de tempos em tempos as economias de mercado. Construí esta forma de encarar estes tremores a partir do pensamento e reflexões de Lord Keynes. E não me arrependi dela ao longo de toda a minha carreira no mercado financeiro, como personagem e analista.”
Particularmente acredito que em relação ao Brasil e outros
países da lista os mercados pecaram por excesso de otimismo, mas essa é uma
discussão longa, ao contrário dos outros trechos que citei nesse post o trecho
acima não é facilmente desfeito com uma olhada rápida nos dados. É um trecho
onde é feita uma declaração de confiança na capacidade dos governos de evitarem
crises, inclusive em países como Brasil e Argentina. Na leitura de um cético me
parece um caso clássico onde a esperança vence a experiência, uma declaração
comparável à do sujeito que indo para o oitavo casamento afirma confiar na
capacidade dos laços matrimoniais resolverem crises conjugais.
Não consigo entender como os jornais ainda dão espaços para esse Mendonça falar tanta besteira.
ResponderExcluirCaro professor, uma sugestão. Agradeceria se fizer um post para explicar melhor seu ponto de vista sobre as privatizações, pois quase todas as "críticas" que vemos por aí são só acusações infundadas.
ResponderExcluirFlavio