Vou tentar fazer um breve guia para que os leitores acompanhem o que está acontecendo na Grécia e entendam minhas razões para dizer que se eu fosse grego
eu votaria no não. Aviso logo que não seria um voto tranquilo, entendo que as duas opções são ruins e terão consequência graves, é uma escolha do menos pior. Aproveito também para sugerir a leitura do excelente post do Mercado Popular a respeito das críticas de Friedman à união monetária na Europa (link aqui).


Para que o leitor que não é economista visualize o argumento
vale a pena considerar um exemplo corriqueiro em várias famílias. O casal de noivos arranja empregos melhores e começa a fazer planos para o casamento, o aumento
de renda veio acompanhado de novos gastos para a preparação do enxoval, mas o
casal continua dentro do orçamento. Vem o casório e o casal decide comprar um
imóvel, para isso se endivida em um banco, ou seja, recorre a poupança de
outras famílias. Até aqui não temos necessariamente um problema, desde que o
casal tenha feito boas escolhas é possível que a compra da casa (investimento) se
pague no decorrer dos anos, a dívida contraída será paga e o casal terá uma
bela residência para criar os filhos. Suponha agora que o casal percebendo que
a renda aumentou e que tem crédito resolva trocar de carro, no lugar do antigo
carro econômico um utilitário de luxo e para isso mais uma vez recorre a poupança de
outras famílias. Temos um problema? Ainda não necessariamente. O casal continua
empolgado e resolve ter lua de mel em Paris e colocar os filhos na melhor escola
da cidade. Agora podemos afirmar que existe um problema? Ainda não. Quando
poderemos afirmar? Aí está a dificuldade, em geral não sabemos. Teoricamente o
problema vai aparecer quando a renda futura do casal não for mais suficiente
para pagar a dívida. Na ausência de bolas de cristal ou outras formas de prever
a renda futura, não temos como afirmar se as decisões do casal foram boas ou
ruins no momento em que as decisões estão sendo tomadas. Se a renda do casal aumentar com o tempo de forma a ser suficiente para
pagar a casa, os carros, as viagens e a escola do filho teremos um casal feliz
que tomou decisões corretas, se acontecer a alguma coisa que faça com que a
renda do casal não aumente o suficiente vamos ter um casal com dividas e talvez
brigando a respeito de trocar os filhos de escola.




A retração da renda e o aumento do desemprego foram fatais
para o ajuste grego. Cansada e sem esperanças a população elegeu um governo de
extrema esquerda que prometeu romper com a política de ajuste e interromper o pagamento
das dívidas. Como a realidade é mais complexa do que imaginam os estrategistas
políticos o rompimento demorou um pouco, mas ao que tudo indica, acontece hoje,
com apoio do povo da Grécia. Aqui do lado, na Bolívia, tivemos um caso
semelhante onde uma política de ajustes que poderia ter funcionado levou a eleição de um governo de extrema
esquerda. Mais uma vez aparece a questão sobre a culpa dos credores. Teriam
sido duros demais? Novamente rejeito a ideia de culpa. A depender do ângulo
alguns vão dizer que os gregos se endividaram demais e outros vão dizer que os
credores foram cruéis ao exigir o pagamento nos termos que exigiram. Do meu
ângulo novamente vejo apostas. Os gregos apostaram que o jogo duro mudaria a
disposição dos credores, os credores apostaram que o jogo duro mudaria a disposição
dos gregos. Pelo que parece ambos perderam suas apostas. Vida que segue.
Poderia ter sido de outra forma? Creio que sim, mas não com
a Grécia no Euro. A outra forma seria melhor? Creio que não, mas talvez fosse
mais palatável para os gregos. Qual a outra forma e por que seria mais
palatável? Para mostrar a outra forma é válido lembrar do Brasil na década de
1980. Nossa situação não era essencialmente tão diferente da dos gregos hoje.
Nos endividamos apostando em um crescimento da renda que não aconteceu, a conta
chegou e não tínhamos como pagar. No lugar de uma crise profunda com taxas de
crescimento negativo da ordem de 8,3%, como a Grécia teve em 2011, tivemos uma
crise longa que se arrastou por toda a década de 80 e foi bem longe na década
de 1990, há quem diga que durou até o começo do século XXI. O que fizemos
diferente da Grécia? Fizemos uma gigantesca desvalorização cambial no começo da
década de 1980 e permitimos o aumento da inflação que se tornou uma hiperinflação
no final da década de 1980. Nossa opção não está disponível para os gregos
enquanto a Grécia for parte do Euro.
Deixarei a parte do câmbio para os que acham que
desvalorização do câmbio sozinha resolve algo, não é meu caso, e ficarei com a
história da inflação. Para isso recorro a mais um exemplo, dessa vez algo que
presenciei não tem muito tempo. Em uma reunião do Conselho Administrativo da
UnB o reitor e o decano de planejamento e orçamento estavam explicando o corte
nos gastos e como os cortes afetarão a UnB. Em um certo momento o reitor
relatou uma conversa que teve com um professor que tinha um alto cargo em uma
universidade de Portugal, lá ocorreu um corte nos salários dos professores,
pelo que entendi a lei de lá, assim como a de cá, não permite redução de
salário nominal, mas mesmo assim a redução foi feita. O amigo imagina um corte
de salário nominal dos professores da UnB ou de qualquer outra universidade
federal? Eu não imagino, o custo político seria muito alto. Por que o governo português
enfrentou o custo político e cortou salários? Porque não tinha outra opção.
Volto à UnB, lá, creio que nas outras federais não é tão diferente, a
folha de salário equivale a aproximadamente 80% do orçamento, sem cortar
salários o corte deve ser todo feito nos 20% restantes. Isso quer dizer que,
sem redução de salários, o máximo que o governo pode cortar nas federais é de
20%, e mesmo assim se estivesse disposto a cortar tudo que não é salário, ou
seja, fechar as federais.
É possível ajustar os gastos com tamanha restrição? Não.
Então o que o governo deverá fazer? Esperar a inflação reduzir o salário
nominal dos professores e demais servidores públicos. Haverá resistência? Sim, mas
muito menor que a resistência a um corte de salário nominal. A proposta do
governo de reajustar o salário dos servidores em aproximadamente 5% por ano nos
próximos quatro anos ilustra que o governo pretende deixar a inflação reduzir
salários reais, as greves que estão aparecendo, mostra a resistência, nada novo
ou anormal, nada parecido com o que aconteceria em caso de redução de salário
nominal. Por que Portugal não deixou a inflação ajustar os salários reais?
Porque Portugal não tem moeda própria e, portanto, não tem política monetária.

A Grécia deveria sair do Euro porque o realismo político mostra que
nem os gregos topam pagar todo o custo do ajuste necessário para superar um
choque negativo e nem o resto da Europa topa bancar os gregos. Em uma federação
tal tipo de troca ocorre normalmente, estados mais pobres costumam receber
transferências de estados mais ricos e, em troca, aceitam os limites de gastos
e endividamento impostos direta ou indiretamente pela União. Em uma federação,
sem a existência de soberania, seria possível que alemães e gregos vivessem com
a mesma moeda, fora disso a convivência de ambos com uma mesma moeda me parece
fadada a repetir crises como a atual. Talvez minha antipatia por governos fortes
esteja inflando meu pessimismo quanto ao futuro da Zona do Euro, confesso que
pequenos Estados soberanos me agradam mais do que uma grande federação, mas,
nesse momento, para além de minhas implicâncias, a realidade mostra que a união
da Europa, pelo menos no que concerne à Grécia, não é viável. O grande projeto
geopolítico que poderia garantir uma era de paz na Europa talvez seja inviabilizado
pela dura realidade da economia. Talvez a perseverança e o compromisso com a
Europa superem as dificuldades reais, mas hoje não parece que vai acontecer. Talvez o resultado do referendo não implique na saída da Grécia da Zona do Euro criando um novo cenário que mude as relações entre os países que adotam o Euro, não creio, mas ao contrário da economia, em política tudo é possível.
Boa sorte aos gregos e boa sorte à Europa! Precisamos de
vocês bem.
Oi Professor.
ResponderExcluirExcelente texto. Gostaria que um dia fizesse um texto sobre a Bolívia. Como o país conseguiu nacionalizar a economia, manter estabilidade e crescer ao mesmo tempo? Essa vai ser a solução de países endividados? Na época achava que a fuga de capitais estrangeiros seria um desastre para o país. Não sei no longo prazo, mas no curto, as medidas de Morales se mostraram acertadas.
Ab
Otimo texto Beto.....mas quanto ao texto do Friedman hein ?...mmmm.....tenho alguns senões : em vez de considerar o enxugamento da maquina estataL tornando -a menos gastadora e deficitaria, menos sugadora e mais eficiente....em vez de considerar a flexibilização das arcaicas leis trabalhistas e junto a absoleta estrutura sindical ocidental ( concorrencia do sudeste asiatico, china , dando pau no ocidente decada á decada ).....e outras reformas estruturais para aumentar a produtividade...ele simplesmente prefere tapar o sol com com a peneira propondo a desvalorização cambial....affffff......me remeteu ao Delfim Neto anos 80....toc...toc..toc na madeira 3 vezes....rssssss
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