domingo, 18 de janeiro de 2015

Seis Hábitos de Gringos que Brasileiros não Entendem

Começo pedindo aos amigos que não estranhem o título, não virei coletivista nem muito menos recebi mandato divino para falar em nome de todos os brasileiros, apenas quis um título compatível com o da matéria que eu resolvi implicar. A matéria, publicada na Exame em abril do ano passado (link aqui), é intitulada "6 hábitos do brasileiro no trabalho que gringos não entendem". Como não levo a sério generalizações resolvi encarar o texto com bom humor e, para não perder a piada, resolvi fazer uma contraposição.


1. Ir direto ao ponto.

Coisa mais desagradável é ir direto ao ponto, perdemos a oportunidade de conversar com os amigos, saber de outras coisas e tudo mais que uma boa e demorada conversa possibilita. Tem coisa mais chata que o sujeito bater na sua porta e já ir falando de assunto sério? Não dá tempo nem de se preparar. Seu chefe chega na sua sala e diz: "Fulano, você vai ter de viajar para Holanda". Não tem nem direito a uma introdução, é tudo de bate pronto, coisa mais chata. No Brasil fazemos diferente, dizemos: "Fulano, como está a família? Seu filho melhorou da bronquite? E a patroa? Rapaz, estamos precisando mandar alguém para a Holanda e eu pensei em você, tem problema? Sei que a madame pode implicar, mas olhe pelo lado bom, é uma viagem agradável, além do mais como seu filho melhorou da bronquite você pode levar a família a aproveitar o final de semana." Muito mais agradável e ainda abre a possibilidade de fazer média em casa. Pode parecer bobagem, mas esta mania de ir direto ao ponto as vezes me deixa irritado, coisa de gente mais apressada.

2. Dizer "não" quando se pode dizer "talvez".

Não há nada de certo neste mundo, tudo que é impossível pode ser possível se visto de outra perspectiva. Como coordenador de curso, chefe de departamento e diretor de unidade já esbarrei em diversas situações que à primeira vista pareciam impossíveis, mas que acabaram acontecendo. O sujeito entra na sala e pergunta se pode fazer algo (ir ao um congresso, fazer uma defesa fora do prazo e coisa do tipo) se eu tiver que responder "sim" ou "não" a única resposta possível seria "não". Nuca faço isso, digo que é difícil, que nunca foi feito antes, mas que posso procurar alternativas, ou seja, digo "talvez" quando deveria dizer "não". Sei que por conta disso alguns ficam frustrados e chateados comigo, acham que faltou boa vontade, afinal eu não disse que "não". Mas quero crer que é passageiro, ademais não conseguiriam seus objetivos de um modo ou de outro, afinal se eu respondo "não' acabou a conversa. Prefiro pensar nos que conseguem seus objetivos por não desistirem diante de um "não" que no final do dia era um "talvez".

3. Querer colegas, não amigos.

Se há uma coisa que tenho dificuldades é separar colegas de amigos e mesmo amigos de não-amigos. O sujeito chega para falar comigo e eu não me interesso por ele porque no lugar de meu amigo é meu colega? Que coisa mais sem cabimento. Gosto de me dar bem com quem passa no meu caminho, perguntar da vida e coisas do tipo. Já imaginou o sujeito vir todo animado falar do final de semana dele com a família e eu desdenhar como seu não fosse comigo. Mania desagradável esta dos gringos. 

4. Não dar o devido valor ao presente.

Coisa mais sem graça que atrapalhar a vida de um sujeito e dizer para ele que está fazendo o bem para ele no long prazo? O longo prazo é problema do longo prazo, não de agora. Nesse ponto eu sou seguidor do Homer Simpson (um gringo boa praça) que ao cometer seus excessos diz ter pena do Homer do futuro e que não queira estar na pele dele. Se vou deixar de comer costela porque daqui a não sei quantos anos vou ter problemas? Vou nada.

5. Seguir tudo a risca.

Sabe o sujeito que sobrevive à queda de um avião e se recusa a sair do assento porque tem escrito "mantenha o cinto afivelado" ou "permaneça no seu assento até receber instruções da tripulação"? Tem gringo que é desse jeito. Sei que cumprir regras é importante e não dá para abusar com as exceções, mas nunca estar a disposto a flexibilizar nada e seguir tudo a risca não tem a menor graça. Ademais os gringos que vem para cá precisam entender que o Brasil foi para não se seguir todas as regras à risca, digo isso para o bem deles.

6. Chegar sempre na hora e não gostar quando alguém atrasa.

Ok, confesso que tento chegar na hora e me incomodo com atrasos exagerados. Mas não posso dizer que não atrase vez ou outra. Fazer o quê? Chego antes para o compromisso, mas alguém me aborda para um assunto sério e antes, como deve ser, pergunta pela bronquite do meu filho. Respondo que melhorou, mas o do meio está com asma. Continuamos falando sobre a vida, a família, a corrupção no governo e o botafogo até que entramos no assunto em questão, algo praticamente impossível de ser feito, mas que após explorar algumas possibilidades acabamos por encontrar um caminho para conseguir uma solução.


Escrevi o texto com a pretensão de homenagear Ariano Suassuna. Naturalmente só fiz porque ele não está mais entre nós, se Suassuna estivesse vivo não faria o texto com medo dele de alguma forma tomar conhecimento e acabar morrendo de desgosto por tão tacanha homenagem. Ocorre que toda vez que vejo um texto a respeito de costumes brasileiros que estrangeiros estranham lembro dos costumes estrangeiros que nós estranhamos e dos causos que Suassuna contava sobre a Suíça (link aqui, a partir de 2:25, antes o alvo era Brasília).



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