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Mostrando postagens de Julho, 2017

Recessão, inflação e (dificuldade de estabelcer) causalidade em macroeconomia.

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Estabelecer relação de causalidade em economia é uma tarefa difícil, em macroeconomia é praticamente impossível. Criar experimentos está fora de cogitação para macroeconomistas, restam os tais experimentos naturais que são raros e cheios de ruídos, com muita perseverança o pessoal coloca algumas variáveis instrumentais para conseguir dizer alguma coisa com um pouquinho de segurança. Mas é tudo muito frágil e fica ainda mais frágil quando lembramos que dados macroeconômicos são difíceis de medir, não raro é difícil até mesmo estabelecer uma relação entre o conceito que aparece nos modelos e a variável que foi usada na estimação. O caso do consumo é um clássico, vários autores usam séries de consumo em suas estimativas esquecendo que na maioria dos países, inclusive o Brasil, tais séries incorporam o consumo de bens duráveis enquanto os modelos são construídos para bens não duráveis. Edward Prescott e Finn Kydland, ganhadores do Nobel em 2004, escreveram um artigo crucial para quem se i…

Dados do primeiro semestre de 2017: a despesa primária ainda não caiu.

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Governo novo, muita coisa nova, mas uma coisa continua velha: a falta de capacidade de fazer um ajuste fiscal que reduza o gasto do governo. A figura abaixo mostra as despesas primárias do governo central para o primeiro semestre de cada ano entre 1997 e 2017, os dados são as Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Repare que a última vez que houve queda no gasto, pelo menos do primeiro semestre, foi em 2003, o ano que Lula chegou ao Planalto. De lá para cá nunca mais vimos queda, pelo contrário, o gasto mostra uma trajetória crescente na sequência do ajuste de 2003.



Enquanto havia crescimento da economia e capacidade de endividamento o aumento do gasto não parecia ser um problema, destaque para o parecia, de forma que autoridades da área econômica estavam sempre prontos a desqualificar quem quer que apontasse o crescimento do gasto. E dá-lhe acusações de ódio aos pobres, de não entender de Brasil, de não entender de economia e até de terrorismo econômico. Pois bem, conforme previsto a t…

Vício Ricardiano, questões morais em política econômica e impostos sobre gasolina.

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Um dos cursos que me arrependo de não ter feito foi o do Prof. Antonio Maria da Silveira na EPGE, um dos conceitos explorados por Antonio Maria era o de Vício Ricardiano, que pode ser resumido como o hábito de derivar proposições normativas a partir de modelos econômicos abstratos. O termo vem de Schumpeter como aparece na citação que retiro de um texto de Antonio Maria publicado como ensaio econômico da EPGE/FGV (link aqui):
“Eles [Senior, Mill e outros] quiseram apenas dizer que as questões de política econômica envolvem sempre tantos elementos não-econômicos, que seu tratamento não deve ser feito na base de considerações puramente econômicas... poder-se-ia apenas desejar que os economistas daquele (como de qualquer outro) período nunca se esquecessem deste toque de sabedoria – nunca fossem culpados pelo Vício Ricardiano... O Vício Ricardiano, a saber, o hábito de empilhar uma carga pesada de conclusões práticas sobre uma fundação tênue, que não se lhe iguala, mas que aparece, em sua…

Subsídios explícitos e implícitos: Comentários a respeito da Nota Técnica da SEAE

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A Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (SEAE) lançou uma nota técnica a respeito dos benefícios creditícios e financeiros da União (link aqui) que é leitura obrigatória para todos que querem saber como entramos em uma crise tão grande. Quem me acompanha já deve ter lido a respeito das duas crises econômicas que estamos passando (ver aqui e aqui): uma de longo prazo caracterizada pela baixa produtividade e o baixo crescimento da produtividade e outra de curto e médio prazo caracterizada pelo desequilíbrio macroeconômico e pela baixa taxa de investimento.
Subsídios tem o poder de direcionar o investimento e impactam o gasto do governo. Em tese, se bem direcionados, subsídios podem induzir investimento em setores estratégicos e levar a um aumento da produtividade. O desempenho da produtividade mostra que se em tese isso é possível de acontecer o fato é que no Brasil não aconteceu, o que sugere que nossos subsídios direcionaram o investimento para projetos poucos…

Subsídios do BNDES e outros gastos do governo federal.

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Um dos problemas de debater gasto público é a ordem de grandeza desses gastos, são números muito grandes de difícil comparação com nossa experiencia no dia a dia. Gastar R$ 520 mil com diárias e passagens em seis meses como fez Dilma Roussef este ano (link aqui) impressiona, grande parte dos brasileiros não faz R$ 520 mil em dez anos de trabalho, mas quando comparamos com os R$ 2,4 bilhões gastos com funções legislativas entre janeiro e maio deste ano os R$ 520 mil desaparecem. Da mesma forma os R$ 2,4 bilhões parecem pequenos quando comparados com R$ 253 bilhões gastos em previdência social no mesmo período. O uso dessas grandezas astronômicas para confundir o público e fugir do debate sobre a necessidade de controle do gasto público ficou marcado na expressão “Dá bilhão?” que foi usada por Ciro Gomes, folclórico candidato a candidato presidencial, em tentativa tosca de se contrapor a Rodrigo Constantino quando este último apontava para necessidade de cortes de gastos.
Tal problema ap…

Uma nota sobre subsídios explícitos, subsídios implícitos e a TLP

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Uma das coisas mais desagradáveis nos debates econômicos que envolvem interesses de grupos organizados é esclarecer a confusão de conceitos que é feita como forma de impedir o debate sobre o mérito da questão. É o caso da confusão entre previdência e seguridade quando da discussão da reforma da previdência e da confusão entre juros e amortizações que aparece quando se trata da dívida pública. No caso do debate a respeito da mudança da taxa de juros do BNDES, a substituição da TJLP pela TLP, a confusão aparece quando tentam misturar a existência de subsídios com a existência de um tipo específico de subsídios.
Quem me acompanha sabe que sou contra subsídios em geral e particularmente contra subsídios para os ricos, sendo assim sou suspeito quando falo de qualquer medida que envolva potencial redução de subsídios. Não reclamo de suspeição, é justa, mas reclamo de quem foge do debate usando de confusão de termos para transformar um debate sobre transparência de tipos específicos de subsíd…

BNDES, Investimento e TLP

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Nos últimos anos o BNDES assumiu o papel de financiador do desenvolvimento brasileiro. A ideia era usar o banco para criar grandes empresas, as chamadas campeãs nacionais, e garantir financiamento a juros bem abaixo do mercado para essas grandes empresas, projetos de infraestrutura e outras empresas que se qualificassem. O auge dessa estratégia aconteceu em 2010 quando o BNDES emprestou aproximadamente R$ 260 bilhões em valores de hoje. Nos anos seguintes os empréstimos do banco ficaram sempre acima de R$ 200 bilhões, com exceção de 2011 que ficou em torno de R$ 197 bilhões. Apenas em 2015, com a crise instalada, o volume de empréstimos caiu do patamar de R$ 200 bilhões ficando próximo a R$ 152 bilhões, em 2016 o volume de empréstimos caiu abaixo de R$ 100 bilhões voltando aos valores observados antes de 2008. A figura abaixo mostra os desembolsos do BNDES entre 2001 e 2016.



A figura também mostra a taxa de investimento no Brasil. Note que a partir de 2006, quando começou o uso do BNDE…

R e Facebook: Analisando dados do grupo Economia

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Continuo usando o período de férias para aprender novos truques com o R, o grupo R-Brasil Programadores (link aqui) tem sido uma excelente fonte de inspiração. De ontem para hoje vi um post que originalmente está no blog do José Guilherme Lopes e que ensina a usar o R para pegar dados do Facebook (link aqui). Como de costume li o post com atenção e resolvi fazer um exercício para ficar alguns conceitos, desta vez o exercício foi analisar os “likes” do grupo Economia no Facebook (link aqui). Assim como fiz com o último exercício (link aqui), resolvi compartilhar com os leitores do blog os resultados que encontrei.
De saída informo que todos os dados do grupo são públicos e podem ser usados por quem quer seja, estritamente falando o exercício que fiz pode ser reproduzido por qualquer um com um lápis, um caderno e um monte tempo disponível. Ainda assim, para evitar polêmicas, só destaquei o lado positivo, não quero irritar ninguém com esse post, muito pelo contrário, a ideia é só fazer um…

Nota sobre o individualismo

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Um conceito fundamental que causa muita confusão no pensamento liberal é o individualismo, o problema é que a palavra possui vários significados que são usados e fazem parte do pensamento liberal, mas que possuem significados muito diferentes. Uma olha no Aurélio deixa claro o problema:
Individualismo. [De individual + ismo] S. m. 1. A existência individual. 2. Fig. Sentimento, conduta, etc., egocêntricos, egocentrismo. 3. Filos. Doutrina ou atitude que considera o indivíduo como a realidade mais essencial ou como o valor mais elevado. 4 Filos. Doutrina que explica os fenômenos históricos ou sociais por meio da ação consciente de indivíduos. 5. Filos. Doutrina pela qual a sociedade deve visar, como fim único, ao bem dos indivíduos que a constituem.
Como podem ver são vários conceitos que, mesmo estando presentes no pensamento liberal, tem significados diferentes, isso gera muita confusão. É o caso de quem acredita que o liberal é um defensor do egoísmo por tomar o segundo sentido da pal…

Exercício de mineração de texto: As palavras usadas por Smith, Mill e Marx

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Esta semana alguém compartilhou no FB o livro “Text Mining with R: A Tidy Approach” (link aqui), como me interesso pelo assunto e estou com mais tempo para aprender coisas novas depois que terminei meu mandato como diretor da FACE/UnB resolvi dar uma olhada no livro. O primeiro capítulo ensina a pegar textos e colocar como bases de dados “arrumadas” (tidy) no R, o segundo capítulo trata de análise de sentimentos, ainda não li os outros. Como gosto de aprender fazendo exercícios fiz uma, vá lá, análise das palavras que mais aparecem em alguns livros clássicos de economia e resolvi compartilhar o resultado com os leitores do blog.
Por limitações minhas as obras escolhidas tinham que estar disponíveis no Projeto Gutenberg (link aqui), uma organização que disponibiliza gratuitamente textos de livros clássicos que não estão protegidos por direitos autorais. Para o exercício considerei três autores clássicos e fundamentais para quem estuda economia: Adam Smith, Karl Marx e John Stuart Mill. …