Porque no tiene, porque le falta... Uma comparação entre Brasil e México no período posterior a Crise de 2008

Comparações entre países são perigosas, mas como quase todas as coisas perigosas são também divertidas, se não trazem conclusões definitivas são boas para provocações e derrubar mitos. Um de nossos mitos favoritos é que a resposta do governo Lula à crise de 2008 foi brilhante e conseguiu isolar o Brasil do desastre que se abateu sobre a economia mundial. Geralmente os que defendem essa tese nos comparam com países da Europa, raramente nos comparam com os mais próximos países da América Latina. Para corrigir tamanha injustiça resolvi comparar o Brasil com o México, os dois maiores PIB da América Latina. Como de costume serão usados os dados do FMI (link aqui).




Comecemos pelo PIB per capita descrito na figura acima. Nenhum dos dois países apresentam redução de PIB per capita nos anos imediatamente seguintes à crise, porém, no final da série, a economia brasileira começa a mostrar queda enquanto a mexicana segue em frente. A figura abaixo mostra quanto seria o PIB per capita de cada país se o PIB per capita de ambos fosse igual a cem em 2009 e considerando o crescimento observado em cada um dos países. Na figura fica claro que logo após a crise o Brasil cresce mais, porém a médio prazo o crescimento do Brasil se mostra insustentável e colapsa enquanto o do México segue com taxas positivas de crescimento. Se for para tirar conclusões das figuras eu diria que o Brasil seguiu uma trajetória bem menos sustentável que a do México. Trajetórias como a seguida pelo Brasil são consistentes com políticas econômicas populistas como as que foram implementadas por aqui.




Outra variável interessante é a taxa de desemprego. Alguns autores afirmam que a política econômica aplicada no Brasil pode ter sido ruim para o crescimento, mas foi boa para garantir empregos, em geral os que pensam assim nos comparam com países como Espanha e Itália, esquecendo que nesses países as políticas de bem-estar, como seguro desemprego, tornam altas taxas de desemprego bem mais suportáveis do que por estas bandas. Quando olhamos para o México o desempenho de nossa economia no quesito desemprego fica bem mais modesto. A figura abaixo mostra que em todos os anos entre 2009 e 2015 a taxa de desemprego no Brasil foi maior que no México, pior, a significativa elevação do desemprego no Brasil em 2015 não tem contrapartida no México. Novamente seu eu tivesse de apostar diria que o México usou políticas mais consistentes que as nossas.




A comparação das taxas de inflação também não nos favorece. Como mostra a figura abaixo a inflação no México foi menor que no Brasil em todos os anos com exceção de 2009. Em 2015 a diferença é humilhante, enquanto o México teve inflação de 2,72% nós tivemos de quase 10%. Curiosamente alguns economistas daqui insistem que a inflação alta é o preço que pagamos por não termos sofrido tanto com a crise, esses mesmos economistas porque o México sofreu ainda menos e não teve de pagar com uma inflação de 10%.




Por último a dívida pública. A figura abaixo mostra que nos dois países a relação dívida/PIB aumenta, porém no México é sempre mais baixa e chega a 54% em 2015 enquanto por aqui chegou a 74%. O quadro da evolução da dívida é particularmente útil para alguns colegas que insistem em negar um problema fiscal por aqui por conta de nossa relação dívida/PIB ser baixa em comparação a observada em vários países ricos. Como já mostrei em outros posts nossa dívida é alta se comparada a de países em desenvolvimento (link aqui).




A comparação com o México mostra que se nossa política econômica foi genial por amenizar os efeitos da crise vamos ter de criar um outro adjetivo para descrever a política econômica do México. Em todas as dimensões avaliadas no post (PIB per capita, desemprego, inflação e dívida/PIB) o México teve um desemprenho melhor que o Brasil nos anos posteriores à crise. Sim, quase esqueço, segundo vários economistas que consideram nossa resposta à crise genial o México estava condenado a sofrer mais que a maioria dos países por ter atrelado sua economia à dos EUA... melhor nem falar mais nada.



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