Porcos e espantalhos ou Ille qui male ludit ad palaestram lusoriam non est invitandus

Começo informando ao leitor que não estou em guerra com todo e qualquer economista que se autodenomine heterodoxo, pelo contrário, tenho vários amigos e colegas que se autodenominam heterodoxos, participei de eventos promovidos pela AKB, já fui convidado para participar do Seminário de Economia Mineira em Diamantina, convite que aceitei com muita satisfação e definitivamente não me arrependi de ter aceito, e, quando fui secretário adjunto da ANPEC foi por convite de uma economista pós-keynesiana que foi eleita secretária executiva. Em várias oportunidades trabalhei junto com economistas autodenominados heterodoxos em fóruns, reuniões e encontros. Nas situações onde eu representava a UnB e o assunto em debate envolvia interesses comuns a grandes departamentos em universidades públicas me entendi várias vezes com a turma da UFRJ, UNICAMP e UFMG. Nada disso me impede de ser um duro crítico do desenvolvimentismo, que é uma mistura de estruturalismo e pós-keynesianismo com pitadas de outras heterodoxias a depender do autor, e crítico da maior parte do pensamento heterodoxo. Eu separo pessoas de ideias e não estou nem um pouco preocupado se meu interlocutor faz ou não a mesma separação.

Dito isso, passo para o assunto do post que é a reação de um grupo de economistas a um texto do Alexandre Schwartsman publicado originalmente na Folha de São Paulo (link aqui). O motivo para reação foi que no texto alguns economistas heterodoxos bem conhecidos de todos são apresentados como animais de fazenda, a forma da reação foi uma nota de repúdio enviada a Folha de São Paulo (link aqui). Na sequência vieram um texto do Carlos Eduardo Gonçalves no Estadão (link aqui), uma resposta do Belluzo (link aqui), um texto do Mansueto Almeida (link aqui), uma petição pública em apoio a Alexandre Schwartsman que eu assinei tão logo soube da existência (link aqui), um outro texto do Mansueto (link aqui), um outro texto do Carlos Eduardo (link aqui) e um texto no Economista X (link aqui). Além destes textos tratando diretamente do tema encontrei mais dois textos que fazem referência ao texto original do Alexandre Schwartsman e/ou a resposta de Belluzo, ambos favoráveis a tese original do Schwartsman. O primeiro do Rodrigo Peñaloza (link aqui) argumenta que crises costumam ter responsáveis e que o riso é uma forma válida de contrapor um argumento, o segundo, do Marcos Lisboa e do Carlos Eduardo (link aqui), argumenta que os economistas heterodoxos que criaram e implementaram a Nova Matriz Econômica são os responsáveis pela crise. Se pulei algum texto peço desculpas, estes foram os que li e consegui lembrar, e, creio eu, permitem ao leitor interessado ter uma ideia do que está acontecendo.

Conhecida minha não beligerância com todo e qualquer heterodoxo que passe no meu caminho e a polêmica em que vou me envolver passo ao ponto especifico que quero fazer nesse post. Economistas heterodoxos me parecem ter dificuldades em apresentar as próprias teses sem fazer referência a economistas ortodoxos. Por exemplo, eu, o Victor Gomes e o Adolfo Sachsida temos um texto bastante citado onde aplicamos o modelo básico de ciclos reais de negócios para a economia brasileira (link aqui), nem o modelo e nem a análise são apresentados como contraponto a teoria keynesiana ou a qualquer outra teoria. Claro que fizemos a revisão de literatura, mas a revisão não tratou de temas sem relação direta com o nosso tema e tanto o modelo como a a análise possuem vida própria, é perfeitamente possível ler o artigo pulando trechos de forma a ler apenas o modelo e a análise. O mesmo não acontece com vários textos “heterodoxos” que leio, geralmente teses ou dissertações que sou convidado a participar da banca. De fato, em quase todas as bancas "heterodoxas" que participei sugeri ao autor que dedicasse menos tempo a falar de autores ditos ortodoxos que não são relevantes para o modelo da tese e mais tempo ao modelo e/ou na análise proposta na tese.

Qual o problema de usar tempo falando dos “ortodoxos” em uma tese “heterodoxa”, poderia perguntar o leitor, não é bom mostrar o contraponto, continuaria perguntando o leitor. O problema é que os tais ortodoxos descritos como contraponto via de regra não existem ou, se existe, não representam o pensamento ortodoxo, talvez pelo fato que não existe um pensamento ortodoxo que possa ser apresentado como contraponto. A verdade é que, ao contrário da heterodoxia que são várias e cada uma segue um determinado paradigma, a ortodoxia é ampla e admite conflitos até mesmo entre paradigmas. A escola austríaca é uma heterodoxia que tem determinados paradigmas que identificam os seguidores de tal escola, o mesmo vale para os pós-keynesianos ou neo-schumpterianos ou qualquer outra heterodoxia. No lado ortodoxo a coisa é mais complicada, um economista novo-keynesiano, por exemplo o Mankiw, tem uma abordagem para moeda e política monetária muito diferente da de um economista de Chicago, por exemplo o Lucas, e mais ainda da abordagem do pessoal de ciclos reais, por exemplo o Prescott. Sendo assim como dizer que “ortodoxos defendem que moeda é neutra”, frase comum em monografias de alunos com pretensões heterodoxas. Mankiw é um economista heterodoxo? Quando dizem que “ortodoxos acreditam que em mercados perfeitamente competitivos” estão mandando para heterodoxia toda a literatura de organização industrial? Por aí vai... ao criar a “visão ortodoxa” que servirá de contraponto para sua tese o que o jovem economista heterodoxo está criando é um espantalho. Aí começa o perigo.

Se fica entendido que o espantalho é apenas um recurso para apresentar onde o modelo rompe com o que o autor considera ortodoxia então temos apenas uma forma pouco elaborada de apresentar um argumento. Porém, se o espantalho começa a ganhar vida e se transforma em interlocutor, começamos a tomar um caminho perigoso, tão mais perigoso quanto mais intenso e mais próximo da política for o debate com o espantalho. No limite o economista que estudou em algumas das melhores escolas do Brasil e/ou do exterior, que fez provas e infinitas listas de exercício (os malditos homeworks até hoje me assombram) sobre informação imperfeita, informação incompleta, escolha envolvendo risco, incerteza, falhas de mercado, modelos de competição imperfeita e etc é reduzido a um sujeito que não consegue pensar o mundo que não dentro do paradigma de mercados perfeitamente competitivos com previsão perfeita. A hipótese que o sujeito possa usar o modelo ciente das limitações do mesmo é abandonada em prol da hipótese que o sujeito é algum tipo de idiota, um débil mental, uma pessoa sem senso de realidade ou mesmo alguém com más intenções.

É claro que nem todos os heterodoxos caem na tentação de entrar em debates cada vez mais aguerridos com espantalhos, se os que conheço formarem uma amostra representativa eu diria que maioria não cai nesta tentação, mas, infelizmente, a grande maioria dos heterodoxos costuma ter uma postura leniente com os que duelam até a morte do espantalho. Um duelo estranho onde toda vez o espantalho morre apenas para retornar maior e mais temível para o próximo embate. Para ficar no exemplo do segundo texto do Carlos Eduardo, não lembro da reação indignada dos que ficaram indignados com o Alexandre Schwartsman quando Maria da Conceição Tavares chamou Marcos Lisboa de débil mental, aqui pouco importa que Marcos Lisboa tenha minha admiração desde a época que era o melhor aluno em um tempo e um lugar onde eu estava entre os piores, se é para ficar melindrado com ataques pessoais é preciso que a indignação apareça com ataques a qualquer pessoa, se não for assim a indignação não é exatamente com o ataque pessoal e sim com o alvo do ataque pessoal. Que fique claro, eu não fico indignado com ataques pessoais em abstrato e, portanto, não me sinto obrigado a mostrar indignação com a ataques pessoais a quem quer que seja. Sou da turma que acredita que ninguém tem o direito de não ser ofendido.

A questão não vem de hoje, lembro que uma vez perguntaram ao Simonsen porque ele não debatia com certos economistas heterodoxos, naquela época Simonsen era chamado de ortodoxo pelos heterodoxos, e ele respondeu que tais debates costumavam chegar a um ponto onde a única resposta possível seria xingar de volta. Ocorre que de uns tempos para cá os que aceitavam calados encarnar espantalhos resolveram revidar de fato, não apenas na imaginação de seus criadores, e a reação não foi a esperada pelos criadores. Alguns economistas ditos ortodoxos começaram a mostrar que não correspondiam a descrição feitas pelos “heterodoxos”, apareceram blogs e colunas de jornais com economistas mostrando que dominam e podem aplicar um gigantesco conjunto de modelos teóricos e técnicas de análise empírica. Como enquadrar a turma que estuda pobreza e que todo ano inunda os encontros de economia com avaliações positivas do bolsa família no espantalho? Como enquadrar a turma de organização industrial, inclusive os que estão ou estiveram no CAD, no espantalho? Como enquadrar o pessoal de teoria da decisão no espantalho? Como enquadrar o pessoal da economia comportamental no espantalho? Como enquadrar no espantalho aquela turma que manda bem na econometria e alimenta debates importantes como a questão racial, a questão de gênero e a questão do porte de armas?

A medida que estes economistas foram aparecendo e ganhando espaço a figura do espantalho foi tomando uma forma clara de espantalho e os que brigavam com tais espantalhos foram caindo no ridículo. Alguns recuaram e largaram mão dos espantalhos outros se tornaram mais agressivos com seus espantalhos. Daí começou um outro tipo de resposta, os economistas que deveriam estar encarnados nos espantalhos não mais se contentaram a mostrar que não eram espantalhos como resolveram “xingar de volta”. Neste ponto Alexandre Schwartsman, que eu considero um economista keynesiano, tomou um papel de destaque, o estilo agressivo ofende alguns, principalmente os que estão acostumados a aplausos, mas não é nada que justifique a perseguição que já fizeram a continuam fazendo a Schwartsman. Muitos dos que acusam Alexandre Schwartsman usam o mesmo estilo agressivo para referir a seus “oponentes” ou são lenientes com que usa. Não consigo ver a tal nota de repúdio como diferente da reação daqueles acostumados a estar do lado dos que batem ao perceberem que o amigo que mais fala grosso tomou uma porrada em público e, pior, não conseguiu revidar, a resposta ao primeiro texto onde aparece o Dr. Belleza foi triste. Eu ia terminar o texto fazendo referência a turma do porco e dizendo “quem não sabe brincar, não desce para o play”, mas graças ao Rodrigo Penãloza vou poder usar a estratégia de terminar o texto em latim para que pensem que eu sou inteligente independente de qualquer bobagem que eu tenha dito, lá vai: ille qui male ludit ad palaestram lusoriam non est invitandus.



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