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Mostrando postagens de Julho, 2015

Inflação, economia real e o aumento da taxa de juros.

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Não é possível contar a história recente da economia brasileira sem mencionar o esforço para trazer a inflação para níveis civilizados. Durante muitos anos o debate econômico no Brasil girou em torno de temas relacionados à inflação, alguns debatiam como conviver com a inflação, outros debatiam como reduzir a inflação e outros se dedicavam a entender as origens e as causas da inflação. Não vou questionar a validade de tais debates, grosso modo acredito que foram em vão, entrar nessa questão desviaria o foco do post, apenas registro que quando finalmente conseguimos controlar a inflação fizemos o que todo mundo faz: usamos política monetária. Sem o uso da política monetária o Plano Real quase certamente teria sido mais um exemplo de fracasso, o controle inicial da inflação teria evaporado em menos de um ano.
Os críticos do uso da política monetária para controlar a inflação costumam apontar efeitos coletarias reais ou imaginários da elevação da taxa de juros. Uma leitura nos jornais é…

Reformas e Indústria Automobilística: uma leitura do Anuário Estatístico da Indústria Automobilística

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O leitor que acompanha o blog sabe que um dos principais motivos para existência desse espaço é denunciar a agenda de contrarreformas que começou por volta de 2006 e tomou força a partir de 2011 com a chegada de Dilma ao poder. O fracasso da Nova Matriz Econômica proposta pela equipe econômica do primeiro governo Dilma hoje é evidente. Um programa que prometia aumentar o crescimento e a taxa de investimento, recuperar a participação da indústria no PIB e ainda manter a inflação sobre controle e aprofundar o processo de redução da pobreza extrema e desconcentração de renda teve como resultado o exato oposto do que propunha. O país parou de crescer, a taxa de investimento reverteu a tendência de crescimento, a participação da indústria no PIB continuou caindo, a inflação subiu, a miséria aumentou e o processo de desconcentração de renda perdeu força. Diante de tamanho fracasso continuar batendo na agenda de contrarreformas poderia ser visto quase como uma forma de sadismo, mas não é. A…

Uma nova década perdida?

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Em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,5%, era o coroamento de uma década de crescimento que há muito não se via no Brasil. Depois do desastre da década de 1980, conhecida como década perdida, dedicamos a década seguinte a arrumar a casa e estabilizar a economia. Com a economia estabilizada a primeira década do século XXI foi caracterizada por crescimento acompanhado de redução da pobreza e da desigualdade. De acordo com os dados do FMI (link aqui) nas décadas de 80 e 90 o PIB per capita cresceu a uma média anual de 0,1% e 0,92%, respectivamente. Sendo assim não foi sem razão que comemoramos com entusiasmo o crescimento médio anual de 2,43% na década que foi de 2001 a 2010. Não bastasse a volta do crescimento também houve um aumento da taxa de investimento, em 2001 o Brasil investiu 18,9% do PIB e em 2010 investiu 21,8%.
Com uma década de crescimento inclusivo e com o aumento do investimento não faltou quem decretasse que a década de 10 seria ainda mais impressionante que a anterior. Com…

Comparando Gigantes: Brasil, Rússia, China, Índia e Estados Unidos

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Vez por outra comparo a desempenho econômico do Brasil com outros países, sempre aparece alguém apresentando bons motivos para justificar que o grupo escolhido não é adequado. Quando comparo com a América Latina dizem que a comparação é descabia porque somos mais industrializados que os outros países do continente, já questionei no blog a validade desse argumento (link aqui), ou porque somos muito maiores do que nossos vizinhos, o que é verdade embora não seja um impeditivo para comparação. Mesmo acreditando que a América Latina é uma boa referência para comparações com o Brasil (tratei do tema aqui) não raro aceito as críticas e procuro outros grupos de comparação, fiz isso no post a respeito da produtividade (link aqui). Outras vezes aparecem comparações com países em cima de uma única variável, nesses casos gosto de pegar o pais que serviu de comparação e avaliar outras dimensões (fiz um exercício do tipo aqui).
Por alguma razão alguém me enviou a figura abaixo sugerindo que o gru…

A respeito do corte de orçamento na pós-graduação

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Uma nota da Universidade Federal da Bahia (UFBA) a respeito de um corte de 75% no total de recursos do PROAP (programa do governo federal que financia a maior parte da pós-graduação) gerou alguma comoção entre a comunidade de pesquisadores no Brasil. A nota da UFBA (link aqui) fala da possibilidade da paralisação das atividades de pós-graduação não apenas na UFBA como na maioria das universidades do país. Tenho experiência com pós-graduação, durante seis anos fui coordenador de pós-graduação no Programa de Pós-Graduação em Economia da UnB, não chego a dizer que um corte de 75% do PROAP vá paralisar a pós-graduação mas vai chegar perto, nas ciências duras, onde os custos e a necessidade de um fluxo continuo de financiamento são maiores, é possível que ocorra uma paralisação de fato.
Como chegamos a tal situação? Para tentar responder essa questão fui na página da CAPES e avaliei os orçamentos disponíveis (link aqui). Começo com a quantidade destinada a pós-graduação. A figura abaixo m…

Meu registro da entrevista da presidente à FSP

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O Antagonista leu a entrevista de Dilma à Folha de São Paulo (link aqui) e registrou os ataques da presidente ao juiz Sérgio Moro (link aqui). Eu também li a entrevista e deixo registrado o plano da presidente para as reformas estruturais.

E o governo vai ter de cobrir este buraco? Vamos ter. Mas aí estamos agora mais preocupados em tomar medidas estruturantes, que contribuem ao mesmo tempo para o ajuste como para para o médio e longo prazos. Tipo? Tipo tipo. Esta eu não conheço. Vou te dizer como fazíamos em interrogatório. Você faz um quadrado (desenha), ai de ti se sair deste quadrado, você está lascado. Então, se eu não quiser falar de que tipo [de medida] eu não falo, tenho técnica para isto. Treino.



Sobre o Euro e o Referendo da Grécia

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Vou tentar fazer um breve guia para que os leitores acompanhem o que está acontecendo na Grécia e entendam minhas razões para dizer que se eu fosse grego eu votaria no não. Aviso logo que não seria um voto tranquilo, entendo que as duas opções são ruins e terão consequência graves, é uma escolha do menos pior. Aproveito também para sugerir a leitura do excelente post do Mercado Popular a respeito das críticas de Friedman à união monetária na Europa (link aqui).
Comecemos pelo PIB per capita, variável que melhor oferece um painel geral do que está acontecendo em uma economia. O PIB per capita da Grécia inicia uma trajetória de crescimento em 1994, antes da criação da Zona do Euro. Os primeiros anos da década de 1990 foram de baixo crescimento e inflação alta na Grécia, o PIB per capita encolheu em 1992 e 1993, a partir de 1994 tudo começou a melhorar e com a entrada na Zona do Euro ficou melhor ainda, entre 1994 e 2000, a taxa de crescimento da Grécia foi de 2,73% ao ano, entre 2001, a…