domingo, 2 de novembro de 2014

Sobre o Déficit Público de Setembro.

A notícia da semana foi o déficit primário record do governo federal (ver aqui). Mansueto Almeida tratou do assunto no blog dele (link aqui) e Raul Veloso, mesmo antes da divulgação dos números, há mostrava preocupação com o assunto (link aqui). Não vou tentar acrescentar nada ao que os dois já escreveram, até porque ambos entendem muito mais do assunto do que eu. Vou limitar a explicar o que é o déficit primário e registrar o que está acontecendo com o outro componente do déficit público, qual seja, o pagamento de juros.


Considere um sujeito que ganhe R$ 10.000,00 por mês. Suponha que os gastos dele com alimentação, moradia, educação, lazer e tudo mais que ele faça para viver seja de R$ 8.000,00 por mês, suponha ainda que o sujeito tenha uma divida e pague R$ 3.000,00 de juros por mês, note que ele não paga a dívida, apenas os juros da dívida. Imagino que você esteja pensando que o sujeito está com problemas financeiros, se pensou você está certo, alguém que gaste R$ 11.000, por mês (R$ 8.000,00 + R$ 3.000,00) e está endividado de fato está encrencado. Não recomendo que quem duvida experimente fazer isto porque não quero mal a ninguém, mas se você tem um parente ou amigo em condição parecida você sabe do drama que ele está passando. Pois bem, apesar de claramente encrencado, se o sujeito fosse o governo brasileiro diríamos que eles estava bem pois o sujeito teria um superávit primário. O truque é excluir os gastos com juros, no lugar do gasto total os analistas consideram apenas o gasto do governo com saúde, educação, previdência, salários e outras despesas importantes. mas não consideram o pagamento de juros. No exemplo diríamos que o sujeito está com superávit primário de R$ 2.000,00. Bacana não é? Você está endividado, gastando mais do que ganha e mesmo assim arranjam um jeito de dizer que você está bem.

Quando o governo tem déficit primário, como está acontecendo atualmente, é porque está gastando mais do que arrecada sem considerar o pagamento de juros. Na verdade a notícia que o governo teve um déficit primário de R$ 20 bilhões pode ser lida como o governo gastou R$ 20 bilhões mais do que arrecadou e nem mesmo pagou os juros do que devia, isso foi só em um mês. Para dar uma ideia de dimensão o Bolsa Família custa aproximadamente R$ 25 bilhões por ano. Ocorre que o pagamento de juros também está subindo, em setembro o governo federal pagou R$ 42 bilhões de juros, em agosto tinha pago R$ 18 bilhões e em setembro de 2013 tinha pago R$ 9.3 bilhões. No total o rombo do governo federal em setembro foi de R$ 63 bilhões. A figura abaixo mostra os números, os dados são do Banco Central.


Como se virar com um rombo deste tamanho? Os apressados podem falar em não pagar juros e coisas do tipo, é um erro, temos crédito na praça, não pagar juros ou dívida nos cortaria esse crédito e ainda teríamos que nos virar para pagar os R$ 20 bilhões do déficit primário. Acabaríamos tendo de pegar dinheiro emprestado a taxas ainda mais altas, aliás já tentamos moratórias e calotes no passado, não funcionou. A verdade é que a receita para não pagar juros é não se endividar. Cortar gastos não é fácil, as propostas mais comuns esbarram no folclórico desafio de Ciro Gomes, "dá bilhão?"(link aqui). Alguém poderia lembrar que mesmo com um rombo de R$ 63 bilhões só em setembro o governo arranjou de emprestar R$ 20 bilhões para o BNDES (link aqui) financiar empresários amigos e tiranias pelo mundo, mas daí vão dizer que não vale e que isto e que aquilo. Outra alternativa é aumentar impostos, o problema é compatibilizar o aumento dos impostos com os agrados à nova classe média e aos empresários amigos e financiadores de campanha. Sobra inflação, o governo imprime dinheiro para pagar as contar e ficamos todos mais pobres. Depois é só chamar o João Santana para acusar os "falcões da inflação" de insensíveis e amigos dos banqueiros...





Um comentário:

  1. De novo o Beto ....com poucas palavras, outra otima aula de economia.....valeu !

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