Comentários a Respeito do Preço do Petróleo e do Pré-Sal

A queda no preço do petróleo coloca algumas questões importantes para economia brasileira, afinal nossa maior empresa é uma petroleira. Por absurdo que pareça alguns viram a queda do preço do petróleo como algo positivo para Petrobras, o absurdo tem uma justificativa. Por conta da política econômica heterodoxa do governo a Petrobras perde dinheiro quando vende gasolina no Brasil, o combate à inflação via controle de preços forçou a empresa a vender com prejuízo. A queda no preço do petróleo e da gasolina no mercado internacional resolveu esta distorção, hoje a Petrobras não está mais tendo prejuízo quando vende.

Há motivo para comemorar? Eu não comemoraria tão rápido. Se a queda do preço for temporária de forma a permitir que a Petrobras reequilibre suas finanças sem correr o risco que a política econômica volte a obrigar que a empresa tenha prejuízos então a notícia pode ser boa. Pequenos ajustes nos preços de gasolina poderão tirar à Petrobras do sufoco sem assustar o governo de plantão. Por outro lado, se a queda for persistente, a Petrobras pode ter enormes prejuízos, só não digo que pode falir porque o governo não vai deixar, em breve eu explico a razão, falemos agora a respeito das perspectivas para o preço petróleo.

A figura abaixo mostra o preço do barril de petróleo desde 1970 (acima) e nos últimos doze meses (abaixo). Os preços estão em dólares e foram ajustados pela inflação americana (link para os dados aqui). Repare que apesar da queda significativa dos últimos meses o preço ainda está acima do que estava em 2006 e bem acima do que estava em 2001 no começo do boom das commodities. Na imprensa internacional fala-se que a queda nos preços pode ser persistente e que o barril de petróleo pode chegar a US$ 60,00 ou mesmo US$ 40,00 (ver aqui e aqui).




A demanda está comprometida pelo fim do ciclo de expansão pós-crise na Europa (alô atenção, fim do ciclo quer dizer que estava crescendo e vai parar de crescer logo não tem relação com o baixo crescimento brasileiro), pela volta do uso de energia nuclear no Japão, pela redução do consumo em vários países por conta de tecnologia e outros fatores (quanto mais quente menos aquecimento e menos consumo de petróleo) e pela oferta de bens substitutos como o gás xisto (shale gas) dos EUA. A crise do Oriente Médio não levou à redução na oferta como em outras oportunidades, pelo contrário, sofrendo ameaças internas e de organizações como o Estado Islâmico os governantes do Oriente Médio não estão dispostos a cotar a produção. Grandes produtores fora do Oriente Médio como a Venezuela também estão desesperados por recursos e não estão dispostos a cortar produção. Acrescente novas fontes de petróleo como o pré-sal brasileiro e o cenário para uma queda mais longa e mais persistente do preço de petróleo está armado. Eu falei pré-sal? Falei, aí está o problema.

O petróleo do pré-sal é um petróleo caro, muito caro. Buscar petróleo no fundo do mar envolve estruturas, pessoal especializado, tecnologia e riscos que não incidem na produção em terra. Estima-se que com o barril abaixo de US$ 85 buscar petróleo em águas profundas no Golfo de México deixa de ser lucrativo (link aqui). Há mas eu li em algum lugar que com o preço do barril acima de R$ 60 o pré-sal é viável, alguém pode dizer. A refinaria de Abreu Lima foi projetada para custar US$ 2,5 bilhões, quando a obra começou em 2009 a Petrobras já esperava investir US$ 13,4 bilhões, até o momento já investiu mais de U$ 18 bilhões (link aqui) e a refinaria ainda não está completa. Se erram tanto em algo relativamente simples como uma refinaria o que esperar de algo complexo e arriscado como o pré-sal? Pelo que já li e conversei por aí com o barril abaixo de US$ 100 o pré-sal não é viável, o número parece ser consistente com os US$ 85 para viabilizar o Golfo do México que é mais simples que nosso pré-sal. Se adicionarmos a margem de erro tradicional das empreitadas públicas brasileiras (vide Copa) é capaz do valor limite ficar acima de US$ 150. Chutei para cima, reconheço, mas não estamos nem perto disso, o barril está abaixo de US$ 85 e sem perspectivas de chegar a US$ 100 em um futuro próximo.

Perceberam? Nos últimos anos a Petrobras investiu pesado em tecnologia, qualificação de pessoal e equipamentos para investir em uma área que pode ficar economicamente inviável pelos próximos anos, a depender do progresso tecnológico e de outras fontes de energia podem ser muitos anos. Para uma empresa com dificuldades de financiar investimento como a Petrobras é hoje um investimento alto e sem retorno a médio prazo pode ser fatal. Pior, não apenas a Petrobras apostou alto no pré-sal, o Brasil também apostou. Marina tentou colocar a questão para debate, mas a máquina do governo não permitiu e a acusou de ser contra o pré-sal. Como sabem os que me acompanham eu não votei em Marina, mas acredito que ela estava certa ao questionar o pré-sal. Como brasileiro torço para que ocorra uma reversão no preço do petróleo e o pré-sal e não fique como um gigantesco elefante branco submarino, como economista que trabalha com macroeconomia e crescimento mas vez por outra gosta de olhar para questões setoriais, particularmente na questão energética, temo que tenhamos posto muito dinheiro em uma aposta por demais arriscada.





Comentários

  1. Meu coração me diz para votar em Aécio, mas meu cérebro diz que para votar em Dilma. Queria tanto ver uma grave crise econômica explodindo nos braços do PT. Petrobrás cotada abaixo de 1 real, desemprego acima de 20%, inflação acima de 10. Assim enterraríamos de vez o bolivarianismo que nos assombra. Aécio, se ganhar a eleição, fará os ajustes que o país precisa. Mas aí chega 2018 e o PT utiliza as medidas impopulares adotadas pelo governo, para poder voltar ao poder com mais força.
    Pensando a longo prazo, poderia ser melhor o PT ganhar agora.

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    1. Nunca seria melhor o PT ganhar agora. Olha o terrorismo eleitoral que eles já estão fazendo, se eles governarem por mais 4 anos vão aparelhar as instituições para fraudar as eleições e não sairão do poder sem uma revolução.

      Isso já é realidade na Venezuela e na Bolívia, infelizmente, se a Dilma se reeleger, estaremos condenados ao mesmo destino.

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    2. Você está assumindo que o dano que mais um mandato de Dilma pode ser reversível. Eu temo que não. Por outro lado, se a oposição ganhar, basta manter o Bolsa Família e agüentar 1-2 anos de ajuste que estaremos crescendo 3-4% ao ano nos dois últimos anos do mandato e o PSDB se reelege no primeiro turno em 2018

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    3. Eu sempre pensei igual. O Aécio perdeu as eleições e agora o PT terá o amargo gosto de seu veneno praticado nesses ultimos 12 anos de governo. Lula se diz pronto pra 2018, mas ele se esqueceu que até lá muita água vai rolar debaixo dessa ponte. Acredito ainda que o fim dele e da Dilma pode ser a PAPUDA. Veremos !!!

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  2. Beto....o dia que li essa materia no jornal, pensei nos investimentos do pré sal....e de forma instintiva ja publiquei no facebook um ponto de vista similar ao seu ....será que temos que comemorar isso ?,,,tipo : só vislumbro sucesso no horizonte no LP .....pois no Curto e Medio prazo teremos tempos amargos se a cotação se estabilizar nos entre 70 e 80 dolares....logicamente fui criticado...heheehehe

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  3. A indústria naval brasileira cresceu como nunca com o PT, a Petrobrás também. Claro que os escândalos tem que serem investigados, e os culpados punidos, com rigor, mas também não podemos fechar nossos olhos e ver o atual governo com preconceito. Algumas melhorias foram feitas nesse setor, na verdade grandes melhorias.

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