Isto não é Pessimismo

Ontem, na noite seca de Brasília, já cansado eu lia com má vontade alguns textos sobre a economia brasileira. Economistas muito respeitados escreviam que o pessimismo do mercado decorrente do diálogo ruim do governo com os empresários é o maior problema da economia brasileira. Enquanto tentava acompanhar os argumentos dos textos que lia meus pensamentos se fixavam em reflexões passadas a respeito da economia brasileira. Reflexões de uma época em que muitos dos que escreveram os textos que me atormentavam diziam que tudo estava bem e que uma era de crescimento e prosperidade estava se abrindo para economia brasileira. Assim, meio dormindo e meio acordado, continuei lendo e refletindo e uma voz irritante ao final de cada reflexão dizia “isto não é pessimismo”...

  • Se amanhã os empresários todos acordarem otimistas e resolverem aumentar a produção vai faltar energia no país e água em São Paulo. Isto não é pessimismo.
  • As contas públicas estão em tal estado de penúria que o governo já está suspendendo repasses para os bancos que operam os programas sociais e precatórios voltam a se acumular. Isto não é pessimismo.
  • A produtividade da economia brasileira é baixa e está praticamente estagnada há quase quarenta anos. Isto não é pessimismo.
  • A educação brasileira é constantemente avaliada entre as piores do mundo. Isto não é pessimismo.
  • Apesar de todas as conversas a respeito de termos nos tornado um país de classe média aproximadamente 90% dos brasileiros estariam abaixo da linha de pobreza se morassem nos Estados Unidos. Isto não é pessimismo.
  • No relatório Doing Business do Banco Mundial o Brasil fica abaixo da centésima posição em 9 dos 11 itens disponíveis. Insto não é pessimismo.
  • A dívida externa está subindo rapidamente e, ao contrário da década de 1970, desta vez sequer temos um estoque considerável de infraestrutura a nossa disposição. Isto não é pessimismo.
  • A inflação está acima do centro da meta, nem mesmo o Banco Central aposta em inflação no centro da meta no próximo ano. Isto não é pessimismo.
  • O Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo e ainda assim os empresários pedem mais protecionismo e o governo acena que dará. Isto não é pessimismo.
  • Apesar de todo o progresso dos últimos anos ainda são assassinadas mais de 50 mil pessoas por ano no Brasil. Isto não é pessimismo.
  • Em nenhuma cidade brasileira é possível sair do avião, pegar o metrô e descer em uma estação em frente ao hotel. Isto não é pessimismo.


A lista é enorme e deprimente, tenho medo de cansar o leitor ainda mais se escrevê-la por completo, não escreverei. Apenas direi que após finalmente adormecer um corvo medonho me falou: “se vocês continuarem chamando a descrição da realidade de pessimismo, a realidade não mudará nunca mais”. Acordei.




P.S. Peço desculpas aos leitores pela ousadia do texto, se meu talento literário fosse próximo da minha vontade de homenagear Allan Poe o post teria ficado muito melhor, talvez até tivesse ficado bom. Tentei.

Comentários

  1. A sua lista está muito pequena, meu caro Roberto. A realidade oferece material para muito mais. Basta pegar os mesmos dados que você cita, por exemplo, o Doing Business, e ver a classificação do Brasil, não a geral, que deve andar em torno de 126, mas aquelas desagregadas e especificamente as que listam quesitos que dependem do governo (tipo tributação, infraestrutura, burocracia, etc), aí a posição do Brasil salta rapidamente para os últimos lugares.
    Pegue um outro relatório, tipo Economic Freedom of the World, e mais uma vez desagregue os dados e os critérios, e nós ficamos muitos pontos atrás da China, uma das mais repressivas autocracias do planeta, mas que consegue ser mais capitalista que o Brasil...
    Pois é, até achei você muito otimista...

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    Respostas
    1. Não quis deixar a lista muito extensa, mas de fato tem mais coisas. Vão ficar para lista das quimeras enterradas. Abs.

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  2. "ainda morrem mais de 50 mil pessoas por ano no Brasil". Faltou algum dado aí.

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