Visita à Embaixada da Palestina

Ontem fui surpreendido por um convite do Prof. Carlos Alberto Torres com um convite para visitar a Embaixada da Palestina em Brasília e prestar solidariedade às vitimas dos ataques à Faixa de Gaza. Minha primeira reação foi declinar o convite, mas pelo respeito que tenho pelo colega de faculdade e antigo decano de orçamento da UnB decidi refletir melhor sobre o convite e acabei aceitando fazer a visita com um grupo de professores da UnB. Gostaria de compartilhar com os amigos algumas reflexões que me levaram a aceitar o convite, decisão da qual não me arrependi.

A negativa inicial tinha um motivo claro. Temia que a visita acabasse tomando ares de um ato de repúdio a Israel e eu não queria participar de nenhum ato deste tipo. Entendo que o caso entre Israel e Palestina é complexo o suficiente para que eu mantenha comigo minhas opiniões sobre o tema, no máximo me permito compartilhar tais opiniões com amigos. Participar de um ato público de repúdio exige uma convicção que eu não tenho. Porém ao refletir sobre o tema me vi forçado a separar o sentimento de solidariedade às famílias que estão sendo destruídas no conflito de qualquer opinião ou juízo de valor que eu possa ter a respeito dos envolvidos.

A verdade é que minha única experiência de morar fora do Brasil foi morar nos EUA. Ambos os países, assim como praticamente toda a América, não são exatamente um estado de uma nação. Descendentes de várias etnias e culturas convivem no Brasil e nos EUA sem se preocupar se o estado é de uma cultura ou de outra. Falamos a mesma língua e estamos sujeitos às mesmas leis não importando quem foram nossos antepassados. Mesmo as diferenças na cor da pele que por muito tempo excluíram os negros da cidadania plena não desempenham mais este nefasto papel, pelo menos não na letra da lei. O simples fato de Obama ser presidente dos EUA comprova esta realidade. Sendo assim a impossibilidade de um estado único que abrigue palestinos e israelitas quando muito me é compreensível por meio de conhecimento acumulados em leituras e aulas, mas é algo muito distante de minha experiência.

Como eu poderia negar um convite para mostrar solidariedade a um representante de uma área que vem sofrendo com mortes e destruição? Como colocar uma opinião a respeito de uma sociedade acima da dor de indivíduos? Não sou eu um adepto da tese de que apenas indivíduos realmente existem e importam? Não são indivíduos que estão sofrendo e morrendo?  São questões difíceis. Estou acostumado a pensar sobre economia, me deparar com tais reflexões não foi uma tarefa fácil. Não foi sem dúvidas que resolvi ir, mas fui.

Como esperado o embaixador da Palestina mostrou a versão dele dos fatos, nada de errado nisto. Mas mesmo assim colocou duas questões importantes: (i) o desejo de que todos que cometeram crimes de guerra sejam julgados e punidos, não importa o lado e (ii) reconheceu o direito a existência do Estado de Israel e ainda fez referência ao Holocausto. O embaixador me pareceu um homem equilibrado e ciente de seu papel. Quanto à possibilidade da visita se tornar um ato de repúdio a Israel eu creio ter exagerado em meus temores. É claro que alguns professores tomaram a posição de críticos das ações de Israel na Faixa de Gaza e é óbvio que o embaixador também acusou Israel de agressão, lembrem que um embaixador está lá para representar interesses de seu governo. Mas não fui convidado a assinar nenhuma nota conjunta, nem mesmo uma declaração oficial denunciando Israel foi feita. Os professores que falaram, eu inclusive, fizeram em seu próprio nome. Minha fala se concentrou em dizer que eu estava ali para demonstrar meus sentimentos e oferecer minha solidariedade às pessoas e famílias que estão sofrendo.

Enfim, não me arrependi de ter ido ao encontro e creio que estaria arrependido se não tivesse ido. Agradeço ao Prof. Carlos Alberto Torres pelo convite e pela oportunidade de refletir sobre o assunto. Em tempo, se alguém estiver se perguntando se eu aceitaria um convite para prestar solidariedade ao embaixador de Israel eu respondo que sim.




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