Política Industrial do Governo não Funciona na Prática... nem na Teoria

Mês passado quebrei o recesso da Copa para comentar as novas medidas de política industrial anunciadas pelo governo. Apontei o absurdo de insistir em uma política que fracassa de acordo com os próprios objetivos. Não é o caso de criticar uma política industrial por concentrar renda, coisa que faço com freqüência, onde alguém pode argumentar que a concentração de renda é um efeito colateral de uma política que trará benefícios no futuro, trata-se de criticar uma política industrial que sequer consegue evitar a queda da produção industrial. Os número do IBGE mais uma vez confirmam o fracasso das políticas de distribuição de benesses para os empresários amigos.


PeríodoProdução Industrial
Maio 2014 / Abril 2014
-0,6%
Maio 2014 / Maio 2013
-3,2%
Acumulado em 2014
-1,6%
Acumulado em 12 meses
+0,2%
Média móvel trimestral
-0,5%

Como mostra a tabela acima (extraída daqui), a produção industrial em maio recuou em comparação com abril deste ano e em comparação com maio de 2013. Só em 2014 a produção industrial já caiu em 1,6%. A redução de 3,2% na produção industrial em comparação a 2013 já seria uma notícia merecedora de atenção por si mesmo, mas tudo fica ainda mais preocupante quando se considera os números desagregados (link aqui). Quando comparada a maio de 2013 a produção de bens de capital teve uma queda de 9,7% e a produção de bens de consumo duráveis teve uma queda de 11,2%. A queda na produção de bens de capital sinaliza que o mercado espera uma redução no investimento, a queda na produção de bens de consumo durável sinaliza uma expectativa de queda no consumo das famílias. Mesmo que seja possível explicar o comportamento de um ou outro setor por questões específicas do setor o quadro geral, 15 dos 24 setores analisados tiveram queda na produção, mostra que a redução da produção é generalizada e, portanto, não é uma questão de ajustes específicos em um determinado setor da economia.

Como um governo que mudou a política econômica para incentivar a industria e aumentar a taxa de investimento pode terminar com números tão ruins? A resposta é simples, o governo não entendeu o que estava acontecendo na economia brasileira. O diagnóstico do governo era que o baixo investimento e a queda da industria decorriam de dificuldades para financiar o investimento, ou seja, escassez de capital e de uma baixa competitividade da indústria local em relação a indústria de outros países, essa baixa produtividade decorreria da taxa de câmbio muito valorizada. Com base neste diagnóstico o governo tomou três medidas que mudaram completamente a política econômica de FHC/Lula que estava fundada no tripé de câmbio flexível, regime de metas de inflação e busca de austeridade fiscal (esta última abandonada no segundo governo Lula). No lugar do antigo tripé apareceu a Nova Matriz Macroeconômica que era caracterizada por: câmbio desvalorizado para incentivar a indústria local, taxas de juros artificialmente baixas para estimular o investimento e uma política fiscal que combina discursos de austeridade com gastos crescentes e tentativas toscas, alguns preferem chamar de criativas, de esconder os gastos públicos. Acrescente a esta receita crédito barato e abundante oferecido por bancos públicos, notadamente o BNDES.

Por que a receita do governo não funcionou? Porque não existe um problema de escassez de capital no Brasil e porque a baixa competitividade da industria brasileira não decorre da taxa de câmbio. Alguém pode argumentar que a baixa poupança nacional revela uma escassez de capital, o problema é que os últimos anos foram caracterizados por abundância de capital e juros baixos no resto do mundo, tal capital poderia ter vindo financiar o investimento no Brasil se existissem condições adequadas. Se o argumento estiver parecendo confuso pergunte a seus botões se faz sentido pensar que a Toyota ou a Nissan não investem mais no Brasil por falta de financiamento, para facilitar a resposta de seus botões informe-os que no Japão eles não sabem o que fazer com tanto capital. O que impede que estas empresas invistam no Brasil ou que empresas nacionais captem recursos no exterior para investir no Brasil? São vários fatores, um deles, surpresa, é o câmbio.

Ao tomar para si a tarefa de determinar o câmbio o o governo passa a controlar os ganhos dos investidores estrangeiros. Imagine o leitor que a Nissan investiu no Brasil esperando lucrar R$ 100 milhões por ano. Com um câmbio de R$ 1,60 este lucro significaria um envio de 65 milhões de dólares para a matriz no Japão, com o câmbio a R$ 2,22 o mesmo lucro significaria um envio de aproximadamente 45 milhões de dólares para a matriz, uma diferença de 20 milhões de dólares! Que câmbio é uma variável difícil de prever todos sabemos, inclusive os analistas de investimento da Nissan, mas uma coisa é depender de incertezas do mercado, que podem ser reduzidas com técnicas de finanças, outra coisa é depender do humor de governos locais. A experiência internacional mostra que humores de governantes podem ser mais caros e mais fatais do que sustos do mercado.

A questão do câmbio que tratei acima é apenas um exemplo do que chamamos em economia de questões institucionais e ambiente de negócios. Regulações confusas com espaços para decisões arbitrárias também compõem o quadro que afasta os investidores do Brasil e torna nossa indústria cada vez menor. A total falta de compreensão de nossas autoridades de como funciona a indústria do século XXI também ajuda a compor o quadro desastroso da economia do governo Dilma. Em uma época de cadeias globais de produção políticas que isolam as empresas brasileiras do mercado global tem como efeito provável a destruição desta indústria, é o que está acontecendo. Se a construção de uma indústria local, isolada do resto do mundo, foi um tema de debate em meados do século XX hoje me parece completamente fora de questão.

Enfim, já passa da hora do governo abandonar o uso de alquimia e enfrentar os problemas da economia brasileira, ou melhor, parar de criar problemas para economia brasileira. O caminho passa por melhoria institucional e no ambiente de negócios, por uma melhora do capital humano e pela solução do problema da infraestrutura. Acreditar que é possível ignorar estas questões e nos levar ao paraíso manipulando preços como  câmbio e juros é insistir em um erro que está nos custando caro.



Comentários

  1. Caro Prof. Roberto Ellery: parabéns pelas oportunas reflexões sobre este sensível tema. Autoritarismo, arrogância e intervencionismo do governo na gestão da política econômica serve apenas para espantar os investidores estrangeiros. Essa postura anti-mercado, apoiada em ideologias ultrapassadas de que o Estado deve controlar os lucros, manipulando preços por meio de câmbio e juros, gera desconfiança e perda de credibilidade do país e dos governantes. Acredito que não terão mais tempo para rever os seus conceitos de como governar uma economia complexa como o Brasil, em pleno século XXI. Abraços, José Matias-Pereira

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