Proteção, socorros e mais proteção... Até quando?

Duas notícias me incomodaram esta semana, nada de novo, muito pelo contrário, me incomodaram de velhas que são. A primeira foi a intenção do governo de criar um fundo garantidor para bancar a inadimplência no empréstimo de carros. A idéia e socorrer o setor que mais uma vez reclama das baixas vendas e estoques acumulando. Em troca o governo quer a redução das margens de lucro no setor. Seria cômico se não fosse trágico, creio que poucos países concederam tantos benefícios à indústria automobilística em troca de reduções de margem de lucro e manutenção de emprego. Ainda assim a margem de lucros dessa indústria no Brasil está entre as mais altas do mundo e a cada dificuldade o setor pede mais benefícios para manter o emprego. É chantagem explícita que o governo aceita, não só o atual diga-se de passagem.
O fato é que as vendas do setor automobilístico aumentaram nos últimos anos por conta de políticas de estímulo, notadamente isenção de impostos, e do crédito fácil e barato para os padrões nacionais. A isenção de impostos por tempo determinado tem o efeito de fazer que com os consumidores antecipem suas compras, pode até ser um artifício engenhoso para superar uma crise, mas tem limites e consequências. Uma das consequências é a redução da compra de carro no futuro. Imagine alguém que comprou um carro em 2010 pretendendo ficar três anos com o carro. Daí que em 2012 veio a redução de impostos e o sujeito resolveu trocar o carro, é muito provável que ele não queria trocar novamente em 2013. Se o plano é ficar três anos com o carro ele só vai trocar em 2015. O consumo que foi antecipado por conta da redução de impostos é o consumo que não foi efetivado no futuro. Da mesma forma o crédito barato é reflexo de uma determinada conjuntura econômica, forçar o crédito barato em outra conjuntura pode acabar por estimular um endividamento exagerado e ainda boicota os esforços do BC para combater a inflação, o que odie encarecer ainda mais o crédito.
Além disto tem um ponto crucial na construção do tal fundo. Quem vai pagar a conta? Entendo que o fundo possa funcionar como um seguro contra a inadimplência, até aí tudo bem. Mas se o Tesouro entrar com recursos para viabilizar o fundo, se estão negociando margens é provável que entre, é preciso deixar claro wue pessoas que não andam de carro estarão financiando os que vão comprar carros novos. É o tipo de transferência de renda cruel, que leva renda dos mais pobres para a classe média ou para os ricos. Curioso que os que estão muito preocupados com a desigualdade ignorem tais questões. Outra possibilidade é que o custo do seguro seja pago pelos consumidores, caso em que os bons pagadores vão acabar pagando pelos caloteiros. Uma última hipótese é que o custo fique com as montadoras, pouco provável, mas neste caso haveria um efeito no preço que acabaria fazendo que mais uma vez bons pagadores paguem por quem fica inadiplente. Como as duas últimas alternativas podem ser implementadas pelo mercado sem necessidade de negociar margens com o governo, creio que algum recurso público vá entrar na jogada. Neste caso, quando olhar para a diarista que vai de ônibus fazer diária em sua casa saiba que ela está ajudando a financiar seu carro novo.
A segunda notícia que me incomodou foi um projeto de lei do deputado Vicentinho (PT/SP) que pretende proibir órgãos públicos de comprar livros no exterior, trata-se do PL 7299 de 2014 (link aqui). Seria cômico se não fosse trágico que em plena era da informação um deputado queira dificultar o livre fluxo de conhecimento. Não estou falando de um deputado qualquer, daquele tipo folclórico que se destaca por projetos estapafúrdios, Vicentinho é uma das principais lideranças do partido que governa o país já vai para doze anos. Não aprendemos com a lei de informática? Atrapalhar o fluxo de informação é fatal para um país que precisa desesperadamente de aumentar a produtividade, um país que clama por desenvolvimento técnico-científico. Vale a pena sacrificar o país por conta de empresários e trabalhadores de um determinado setor? O deputado Vicentinho parece pensar que sim. Os que estão propondo mais socorro ao setor automobilístico também parecem pensar que sim. Até quando?


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