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Mostrando postagens de Fevereiro, 2014

Onde foi que eu errei?

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Hoje o IBGE divulgou que a economia brasileira cresceu 2,3% em 2013. O número é um pouco maior do que eu esperava, não que eu seja particularmente pessimista, de acordo com reportagem do Estadão as estimativas do mercado variavam entre 2,07% e 2,3% com mediana de 2,2%. Isto significa que metade das estimativas estava entre 2,07% e 2,2% e a outra metade entre 2,2% e 2,3%. Quando me perguntam qual a estimativa de crescimento costumo responder a mediana do mercado, no caso seria 2,2%, faço isto porque não trabalho no dia e dia do mercado e, portanto, não tenho estimativas precisas. Mas se alguém insistir em saber minha opinião, eu respondo que a taxa de crescimento deve ficar entre 1,5% e 2%. É um intervalo largo, eu sei, mas estes valores não estão fundamentados em números constantemente atualizados nem em modelos econométricos sofisticados.
Faço meu cálculo a partir da taxa de crescimento da produtividade e da participação da renda do trabalho na renda total. Depois tempero com minha…

1994

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O assunto do dia hoje foi o discurso de FHC a respeito dos 20 anos do Plano Real. Pensei em fazer um post mais técnico sobre o Plano Real, mas decidi que não, tanto os autores do Plano quanto os que o implementaram e o administraram estão vivos e podem explicar o Plano de forma muito melhor do que eu. Gustavo Franco, Pedro Malan, Pérsio Arida, André Lara Rezende, Edmar Bacha e, claro, Fernando Henrique Cardoso estão aí firme e fortes dando palestras e escrevendo sobre o Plano que mudou o Brasil. Desta forma optei por dar um depoimento pessoal sobre como era o mundo em 1994 na perspectiva de um estudante de economia, vindo do Ceará e fazendo o segundo ano do mestrado na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, também conhecida com EPGE.
Naquele tempo a hiperinflação fazia parte da vida de todos os brasileiros, mesmo vivendo com a renda de bolsista eu costumava aplicar o valor da bolsa no Overnight e usava cartões de crédito para adiar meus pagam…

De Caracas a Kiev com escala em Guernica

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Tenho falado muito sobre a Venezuela e pouco sobre a Ucrânia, não é por acaso. Gosto de ler sobre cultura, política e história da América Latina além de acompanhar as economias da região como parte de minha agenda de pesquisa. Isto seria motivo sufiente para que eu me sinta mais confortável falando sobre a Venezuela do que sobre a Ucrânia. Mas a coisa é mais complicada. O que está acontecendo na Venezuela não é nada novo. Chávez foi mais um caudilho populista que tiranizou um povo de nuestra América, mais um entre muitos "ridículos tiranos" que assolam a América Católica. Maduro é apenas o sucessor do Chavismo, um tirano que nem sequer tem o carisma dos líderes populistas. O povo da Venezuela vai sofrer, em algum tempo vai se livrar do bolivarianismo e depois vai saudar outro tirano, se der sorte menos brutal. É o ciclo interminável dos países latino americanos que abrigam estirpes condenadas não a cem, mas a mil anos de solidão. Brasil, Argentina, Colômbia, México, Venezuel…

Por que Dilma não conseguiu entregar o PIBão que prometeu?

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Todos aqueles que fizeram um curso de introdução a economia estudaram o multiplicador dos gastos públicos, também chamado de multiplicador keynesiano. Os que foram além do curso de introdução a economia e fizeram cursos de macroeconomia aprenderam que o conceito do multiplicador é objeto de intensos debates. Para os que ficaram curiosos sobre as críticas ao multiplicador keynesiano eu sugiro este texto de Robert Barro, professor de Harvard, no WSJ ou uma pesquisa sobre a Falácia da Janela Quebrada, para os que estão com preguiça de fazer a pesquisa recomendo este texto no site do IMB. Feitas as devidas ressalvas voltemos ao multiplicador.
A idéia é simples. Suponha que o governo resolva aumentar o gasto público por meio de compras de bens e serviços. Ao realizar esta compra o governo estará criando demanda. Para atender esta demanda os empresários vão aumentar a produção e, para isto, contratarão mais horas de trabalho. Mais trabalho significa mais salários, que por sua vez significa …

A nota da infâmia!

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Hoje o governo brasileiro ajudou a escrever mais uma página na história da infâmia. Diante do que acontece na Venezuela nosso governo assinou uma nota de apoio ao presidente Nicolás Maduro. Nenhuma referência aos assassinatos e as prisões arbitrárias e elogios a atuação do ditador de Caracas. Segue a nota conforme divulgada em O Globo:
“Rejeitamos as ações criminosas de grupos violentos que querem disseminar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela, como instrumento de luta política. Os estados-membros instam às partes a continuar aprofundando o diálogo sobre as questões nacionais no marco da institucionalidade democrática e no estado de direito, tal e como foi promovido pelo presidente Nicolás Maduro Moros nas últimas semanas”. Um ponto final no lugar da última vírgula teria feito da nota uma manifestação insossa para o restabelecimento da ordem, estaria no padrão omisso com que o Brasil trata ditadores pelo mundo. O que vem depois da última vírgula torna a nota…

Sobre o Adolfo, o IMB e o Constantino, ou sobre liberais e conservadores

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Estou acompanhando com interesse os debates desta semana entre liberais e conservadores. Primeiro foi o post do Adolfo Sachsida onde ele afirma que operacionalmente a diferença entre liberais e conservadores se resume a legalização da maconha. Geralmente concordo com o Adolfo, mas neste caso eu discordo. Até acredito que entendi o ponto central do post, qual seja, se um liberal ou um conservador pudesse ditar a política brasileira fariam poucas coisas diferentes dadas as condições atuais do Brasil. Se o ponto central for mesmo este eu concordo, mas o post vai além disto, muito além. Consigo listar uma série de políticas viáveis defendidas por liberais em geral mas que não são aprovadas pela maioria dos conservadores: descriminalização do aborto, liberação de pesquisas com células tronco, casamento gay, adoção por casais gays e definição de família são alguns exemplos.
Depois foi uma discussão que aparece vez por outra mas que vi duas vezes esta semana. Trata-se de uma entrevista de Ro…

IPEA coloca produtividade onde deve estar: no centro das discussões.

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Não estou entre os acadêmicos mais produtivos de minha geração, longe disto, em parte porque dedico grande parte do meu tempo de trabalho à gestão acadêmica. Não reclamo, é uma escolha minha, mas vez por outra bate uma pequena frustração por estar escrevendo menos do que posso ou do que queria. Compenso no FB, no blog, e participando de seminários e debates sobre economia brasileira. Nestes espaços sempre dou ênfase ao que considero o cerne de minha pesquisa: mensurar produtividade e avaliar seu papel para explicar os movimentos de médio e longo prazo da economia.
Desde 2006 transformei isto quase em um mantra. Praticamente toda minha pesquisa e toda minha participação em debates e seminários giram em torno da produtividade. Fiz algumas provocações, entre elas:
Sem crescimento da produtividade o crescimento brasileiro não é sustentável; A baixa produtividade é determinante do baixo investimento e não o contrário; O excesso de burocracia e o ambiente hostil aos negócios são os fatores ma…

Para (mais) uma crítica à política industrial.

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Uma reportagem da Exame falando sobre um fundo com recursos do FGTS para financiar empresas me chamou atenção esta semana. Existe muita literatura que busca justificar a elaboração de políticas públicas para estimular a indústria, é uma literatura que usa argumentos técnicos como ganhos de escala ou alguma forma de externalidade. Para o leigo o primeiro argumento pode ser simplificado pela idéia que quanto maior uma empresa mais eficiente ela é, sendo assim facilitar o crescimento das empresas levaria a um aumento produtividade. O segundo argumento é mais rico e mais complexo mas, grosso modo, consiste na idéia que grandes empresas tornam outras empresas mais eficientes. Isto pode ocorrer por conta da tecnologia adotada na grande empresa chegar nas outras empresas, o dito transbordamemto tecnológico, por conta do capital humano estimulado pela grande empresa, por conta de recursos de infraestrutura ou por conta de qualquer outra coisa do tipo que a criatividade dos economistas permita…