sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Liberdade e Desigualdade, o que dizem os dados?

Uma das verdades estabelecidas na maioria dos debates sobre liberdade econômica é que quanto maior esta liberdade maior será a desigualdade entre os indivíduos. Sendo assim a perda de liberdade econômica seria o preço a se pagar para morar em uma sociedade sem muita desigualdade. Vários liberais sinceros respondem a esta critica com o argumento que importante é reduzir a pobreza, não à desigualdade. A liberdade econômica faria com que existisse mais riqueza e, mesmo mal distribuída, a existência de mais riqueza faria com que a pobreza diminuísse. Para reforçar esta tese são apresentadas várias evidências que países com maior liberdade econômica têm maior IDH.

A conversa então passa a ser uma discussão de valores. Uns dizem que desde que não existam grandes contingentes de miseráveis, desigualdade não é o problema. Afinal que mal tem se algum bilionário pode queimar milhões de dólares em frivolidades se na ponta de baixo as pessoas tem uma vida digna? Outros afirmam que igualdade é um valor em si e que é melhor viver em um mundo mais pobre, porém sem grandes diferenças de renda. Segundo estes, o fato de alguns terem de trabalhar de sol a sol para garantir uma vida digna a suas famílias e outros usufruírem do bom e do melhor sem nem mesmo ter de trabalhar é um insulto à dignidade humana. Ambos os argumentos aceitam que livre mercado leva a desigualdade.

Eu sempre tive dificuldade com a tese que livre mercado leva a desigualdade. Talvez por ter uma crença que as pessoas são todas muito parecidas umas com as outras eu acredite que deixadas livres as pessoas não vão ficar em situação muito desigual. Por outro lado não confio na existência de um estado desinteressado que tire dinheiro dos ricos e passe para os pobres. Uma vez montado aparato de tirar dinheiros de uns e passar para outros creio ser muito mais fácil que os ricos controlem este aparato em benefício próprio. Desta forma o estado acabaria concentrando renda. É o que acontece quando o BNDES empresta a juros baixos alguns bilhões dos trabalhadores para um grande empresário ou quando o governo desvaloriza o câmbio para proteger a indústria. É claro que sempre vão dizer a concentração de renda é um fenômeno de curto prazo e que no longo prazo tudo será maravilhoso. Acredita quem quer.

Por acaso além de ter estas opiniões sou economista e trabalho com economia aplicada. Desta forma estou acostumado a tirar dúvidas como esta olhando para os dados. Resolvi então pegar os dados e checar se é verdade que liberdade econômica gera desigualdade. Não fiz uma análise com o rigor de um artigo científico, afinal isto é um blog, mas creio que consegui resultados interessantes. Para chegar ao resultado usei uma base de dados com 134 países, peguei os dados de desigualdade do The World Fact Book (sei que os suspeitos de sempre vão dizer que é da CIA, mas não achei outra fonte com Gini para tantos países). O índice de Gini mede a desigualdade de renda, quanto maior o valor deste índice maior a desigualdade. Infelizmente os dados são para anos distintos, não é o ideal, mas foi o que eu achei. Para medir liberdade econômica usei o índice de liberdade econômicada Heritage Foundation, quanto maior o índice maior a liberdade econômica do país. Se a crença que liberdade leva a desigualdade corresponde à verdade é de se esperar uma relação positiva entre liberdade econômica e índice de Gini. Se minha crença estiver certa não haverá nenhuma relação clara, o mercado seria neutro em relação a igualdade. A figura mostra a relação.




Note que pela figura não existe uma relação forte entre liberdade e desigualdade. Mais ainda, a relação que existe é no sentido que maior liberdade econômica ocorre em países com menos desigualdade. Notem que a reta vermelha tem uma leve inclinação negativa. Também fiz uma regressão entre o índice de Gini e o grau de liberdade econômica, fazer esta regressão significa calcular a inclinação da reta da figura. Obtive um coeficiente estimado de -0,19, especificamente encontrei que a reta da figura é dada pela expressão: índice de Gini = 51,63 – 0,19 * Liberdade Econômica. Isto significa que a cada aumento de um ponto na liberdade econômica a desigualdade cai em 0,19 pontos. O coeficiente é significativo a 1% mas fica claro que a liberdade econômica explica muito pouco da desigualdade, o R2 foi de 0,04.


Não foi meu objetivo apresentar um modelo para explicar desigualdade. Tudo que tentei foi estabelecer uma relação entre desigualdade e liberdade econômica. Encontrei uma relação negativa e significativa. Quer dizer que aumentar liberdade econômica é uma receita certa para reduzir a desigualdade? Não, os números não disseram isto, também não perguntei isto aos números. O que quer dizer estão? Quer dizer que, de acordo com estes números, não é possível afirmar que liberdade econômica gera desigualdade. Sei que um refinamento da metodologia, permitindo controle por outras variáveis, pode levar a conclusões diferentes. Até que alguém me mostre estes resultados me reservo ao direito de não acatar argumentos que partam da ideia que mais mercados levem a mais desigualdade. A bola está com os planificadores.

22 comentários:

  1. “Outros afirmam que igualdade é um valor em si e que é melhor viver em um mundo mais pobre, porém sem grandes diferenças de renda.”
    Quem tem coragem de afirmar tal insanidade, Robertão?
    Tem gente no Brasil com mentalidade tão primitiva?
    Por favor, dê nomes aos bois. Me diga aí: quem são esses cabeças de bagre?

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    1. Vou tentar fazer uma compilação e colocar aqui. Mas basta acompanhar discussões em fóruns com participação da turma mais a esquerda que você vai ver estes argumentos. Como alguém pode defender a Coréia do Norte?

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  2. Seu raciocio esta correto, Roberto.
    A reducao da desigualdade no Brasil, que o IPEA insiste em colocar na conta dos programas sociais de Lula/Dilma, sao explicadas, em grande medida, pelo processo de abertura economica e estabilizacao dos precos (que de certa forma representam mais liberdade) . Alguns modelos demonstram que a liberdade de mercado aumenta e desigualdade no curto prazo, para depois reduzi-la. O problema de quem estuda desigualdade eh achar que tudo ocorre no tempo "t", ou melhor, se duas coisas caminham juntas, uma causa a outra. Os efeitos da abertura comercial, mobilidade educacional e estabilizacao dos precos estao ocorrendo agora. Mas para Neri e cia, como a desigualdade esta caindo e os programas sociais aumentando, entao, programas sociais reduzem desigualdade. Dureza!

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    1. Concordo, no caso do Brasil eu afirmo com tranqüilidade que a melhora dos indicadores sociais estão relacionadas as reformas e ao fim do desenvolvimentismo. Falei sobre isto aqui: http://www.rgellery.blogspot.com.br/2013/07/idhm-e-as-reformas-ou-nunca-antes-na.html

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  3. Estranhei seu post, porque sempre imaginei que economia de mercado e liberdade politica sempre estivessem juntas, conduzindo a uma distribuição de renda mais equanime. O desafio teórico , me parece, seria encontrar razões por que uma economia de mercado não nos conduziria a uma economia mais igualitária. sinceramente, tomando como base o que ocorre nesse país de rentistas, vejo exatamente o oposto: aonde a liberdade e a oportunidade de negocios não campeiam, a concentração de renda é certa.

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    1. Concordo. Escrevi o post por conta de várias conversas e debates onde se parte do princípio que liberdade reduz pobreza mas aumenta desigualdade. A idéia é que o combate a desigualdade é feito por meio de políticas públicas de transferência de renda. Resolvi olhar os dados e deu no que deu.

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  4. Uma homenagem a seu post: http://hazardm.blogspot.com/2013/08/essa-tal-liberdade.html

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    1. Obrigado. Compartilho da idéia que a melhoria de vida na América Latina está relacionada as reformas e as commodities, o populismo bolivariano não ajudou em nada e ainda atrapalhou. Por exemplo, o índice de Gini no Brasil despenca a partir de 2003, o que Lula tinha feito neste momento? Nem o Bolsa Família existia.

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  5. Professor Roberto, quinta-feira o Paul Krugman publicou esse artigo dizendo que, em algumas décadas, o Milton Friedman será pouco mais que uma nota de rodapé na história do pensamento econômico: http://krugman.blogs.nytimes.com/2013/08/08/milton-friedman-unperson/?smid=tw-NytimesKrugman&seid=auto&_r=2


    Qual sua opinião? Merece um post, não? =)

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    1. Não é a primeira vez que Krugman deixa seu ressentimento falar alto em suas opiniões. Não creio que Friedman vá virar no de rodapé, pelo menos não antes que Krugman, suas contribuições chegam a várias áreas da economia e, forçando um pouco a barra, mesmo as atuais políticas do FED podem ter alguma influência de Friedman. Da mesma forma uma leitura atenta de Friedman pode acrescentar no entendimento da crise européia. De toda forma não sou um especialista em HPE, certamente alguém desta área terá uma opinião mais fundamentada que a minha. Também não sei se tenho como escrever um post sobre assunto, prefiro esperar que alguém de HPE faça o serviço.

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    2. Minha opinião.

      "Nenhum economista sério é Keynesiano", "Milton Friedman vai ser esquecido"... Esse tipo de argumento é retórica pura, no mau sentido da palavra. Serve apenas pra deixar os defensores de cada um desses autores/escolas na defensiva, tendo que lutar em mais uma frente durante um debate. É a estratégia de ir aumentando o número de malabares que o adversário precisa manter no ar.

      Friedman é um dos principais economistas do pós-guerra e também do século XX.

      "Essays in positive economics" é a principal peça de metodologia econômica do pós-guerra (senão do século).

      "The role of monetary policy" é um texto histórico, clássico. E foi um definidor de uma bela agenda de pesquisa. Taxa natural de desemprego, expectativas, o jogo da autoridade monetária com o público. Não haveria Lucas sem Friedman. E sem Lucas o que seria a Macroeconomia hoje?

      "A monetary history of the United States" é um clássico da historiografia econômica.

      Isso sem falar nas contribuições na teoria do consumo, teoria quantitativa da moeda, etc.

      Sem falar no lado polemista e de policymaker de Friedman.

      É certo que o número de citações nos trabalhos do hardcore econômico deve ser muito baixo já hoje. Mas isso não implica em esquecimento.

      Abraço

      Alexandre

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  6. Fernando S,
    A habilidade para ler e entender um texto é mal distribuída... Leia o Krugman de novo -- ele não está criticando o Milton.

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  7. Botando lenha na fogueira:

    "I don’t even want to comment on Krugman’s comments on Friedman and Hayek other than saying that he has succeeded in his mission to provoke. However, his attempt to discredit two of the greatest economic minds of the last 100 years will not be successful. In 50 years nobody will read Krugman’s slanderous attacks on these two great economists, but economic students will certainly still study Hayek and Friedman. I would also hope that they will read Krugman’s contributions to trade theory and to “new economic geography”, but that is much less likely."

    em: http://marketmonetarist.com/2013/08/11/paul-krugman-and-reality-tv-economics/

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    1. Roberto,
      Eu não acredito que você não considera o Krugman um gênio?
      Digam o que quiser, mas o Krugman é um Gigante!
      P.S. Como os comentaristas fugiram ao tópico, eu também me dei o direito de fazer a mesma coisa.

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    2. A qual Krugman você se refere? O economista ou o blogueiro do NYT? Eles em geral não concordam.

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  8. Krugman é um dos maiores economistas vivos e tem contribuições importantes para comércio internacional e outras áreas da economia. Porém, infelizmente, Krugman está investindo mais tempo na função de ativista no que de na de economista. É uma pena, as provocações que ele fez e faz à macroeconomia poderiam estar servindo de base para um novo consenso ou para aperfeiçoar o existente. Ao transformar o debate em uma vendeta contra o que ele chamou de responsáveis por uma idade das trevas da macroeconomia, Krugman perdeu o diálogo com parte importante da academia, inclusive entre keynesianos, e dificultou uma análise menos apaixonada das críticas que ele fez à macroeconomia, muitas relevantes.

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  9. A questao é: o que vc define como liberdade?
    Ou ainda, qual seria o papel do Estado nesse cenario?

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    1. A definição de liberdade é a da Heritage Foundation, detalhes aqui: http://www.heritage.org/index/about
      O papel do Estado varia, entre os dez primeiros do ranking estão Hong Kong, Dinamarca e EUA.

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  10. Olá roberto, gostei do seu blog embora o que eu pretendesse nao era isto
    Abraço colega

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  11. É possível afirmar que liberdade econômica gera igualdade?

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    1. Apenas com base nos dados eu diria que não é possível afirmar, seria preciso de um estudo econométrico bem mais cuidados com mais dados e dados melhores para fazer tal afirmação.

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  12. Professor Roberto Ellery, você conhece as críticas que são feitas ao Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation?

    https://www.google.com.br/amp/s/conhecimentoeconomico.wordpress.com/2015/04/16/a-farsa-do-indice-heritage/amp/


    https://www.google.com.br/amp/s/voyager1.net/amp/economia/a-farsa-dos-indices-de-liberdade-economica/


    https://www.google.com.br/amp/s/voyager1.net/amp/economia/o-indice-de-liberdade-economica-da-heritage-foundation-e-confiavel-ou-olimpiada-do-laissez-faire/


    https://www.google.com.br/amp/s/voyager1.net/amp/economia/10-fatos-sobre-singapura-que-invalidam-os-indices-de-liberdade-economica/


    Qual sua opinião?

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